Dificuldades diferentes, um clamor que se repete

Salmos 107

O panorama

O Salmo 107 reúne problemas muito diferentes sob um mesmo clamor repetido. Os andarilhos não têm cidade, os prisioneiros estão sentados em ferro por causa da rebelião, os enfermos se aproximam da morte, e marinheiros experientes descobrem que a perícia não pode comandar uma tempestade. O Livro dos Salmos usa o mesmo ritmo de aflição, oração, resgate e ação de graças sem fingir que toda crise tem a mesma causa ou precisa do mesmo remédio. Um caminho responde ao vaguear. Grades quebradas respondem à prisão. A cura responde à vida que se apaga. A calmaria responde ao mar. Depois o capítulo se amplia para paisagens em mudança e posições sociais invertidas, onde a terra seca vira água e os príncipes viram andarilhos. A sabedoria, no fim, consiste em observar o padrão inteiro com atenção suficiente para reconhecer a misericórdia sem forçar cada vida dentro de uma única fórmula.

Neste capítulo

Salmos 107: Dificuldades diferentes, um clamor que se repete
Cena do capítuloSalmos 107

A Escritura ao lado do resumo

Salmos · Bíblia Portuguesa Mundial · 43

Salmos 107:1-9

A estrada termina em uma cidade habitada

O primeiro grupo do Salmo 107 quase não tem nada, exceto um movimento sem direção. Nenhum nome é dado, nenhuma rota é traçada, e nenhuma razão para o seu vaguear é fornecida. O Livro dos Salmos deixa a fome, a sede, a exaustão e a ausência de uma cidade definirem a crise. Essa contenção torna o resgate preciso. Deus não apenas melhora o humor deles. Ele os conduz por "um caminho reto" rumo a um lugar onde as pessoas podem de fato viver, e depois sacia a fome que o vaguear intensificou. O padrão repetido do capítulo começa aqui: aperto, clamor, livramento, ação de graças. Ainda assim, os detalhes importam tanto quanto o padrão. Um caminho e uma cidade são exatamente o que essas pessoas precisam, e os grupos seguintes precisarão de outra coisa. O refrão cria unidade sem achatar as diferentes formas da angústia humana em uma única categoria vaga.

Salmos 107:1-9: A estrada termina em uma cidade habitada
Cena do capítuloSalmos 107

Estudo aprofundado

A convocação aos remidos dá ao salmo sua comunidade que fala, mas a primeira cena é notavelmente despojada. Não há viajantes identificados pelo nome, itinerário fornecido ou explicação de por que o povo perdeu o caminho. Fome, sede e a ausência de uma cidade definem sua situação. O resgate responde a essas particularidades: um caminho certo leva a um lugar habitado, e vidas vazias recebem alimento e satisfação.

Essa precisão estabelece o padrão para o que vem depois. O povo clama na dificuldade, Deus livra, e o salmo pede gratidão por sua bondade e suas obras maravilhosas. A repetição não tornará os resgates intercambiáveis. Uma estrada e uma cidade respondem à peregrinação sem rumo; sozinhas, não responderiam a correntes ou a uma tempestade. A forma recorrente dá aos grupos um vocabulário comum de gratidão enquanto preserva as diferentes formas de sua necessidade e de seu livramento.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:1

    O quinto e último livro do Saltério abre com as mesmas palavras de Salmos 106:1, de modo que a costura entre os livros quase não aparece. O Salmo 106 terminou com um povo disperso pedindo “reúne-nos dentre as nações”; os três versículos seguintes descrevem um povo que já foi reunido.

  2. Salmos 107:2

    “Os redimidos pelo SENHOR” é a expressão de Isaías para os exilados que voltam: “os resgatados do SENHOR retornarão” (Isaías 35:10), e “Os Redimidos do SENHOR” (62:12). “Digam-no” manda que falem alto. “Adversário” é tsar, que também quer dizer aperto, a mesma palavra da angústia em que os refrões vão clamar, de modo que “a mão do adversário” pode ser ouvida como o aperto da dificuldade.

  3. Salmos 107:3

    No hebraico, a última direção é miyyam, ‘do mar’, que normalmente quer dizer oeste. Como o ocidente já foi citado, a Bíblia Portuguesa Mundial põe “sul”, como muitas traduções. Isaías 43:5–6 faz Deus chamar os dispersos do oriente e do ocidente e dizer ao norte e ao sul que os entreguem.

  4. Salmos 107:4

    “Um caminho solitário” é literalmente ‘um ermo de estrada’, uma trilha por terra vazia, ou terra sem trilha nenhuma. “Cidade para habitar” é ir moshav, uma cidade habitada, com água e muros. O que lhes falta é um lugar onde gente vive.

  5. Salmos 107:5

    “Desfalecia” vem de ataf, enfraquecer ou envolver-se, a palavra que Jonas usa dentro do peixe: “Quando a minha alma desfaleceu dentro de mim, eu me lembrei do SENHOR” (Jonas 2:7). Fome e sede vêm juntas, como para viajantes que perderam a estrada.

  6. Salmos 107:6

    O primeiro de quatro clamores. “Clamaram” é tsa’aq, o grito dos oprimidos, o verbo de Israel diante do Mar Vermelho (Êxodo 14:10). “Aflições” é metsuqot, lugares estreitos, apertos, o oposto do espaço largo e aberto que o livramento costuma significar em hebraico.

  7. Salmos 107:7

    “Um caminho reto” é derekh yesharah, uma estrada direta em vez dos círculos do vaguear. Esdras jejuou junto ao rio Aava antes de levar exilados de volta da Babilônia, “para buscar dele um caminho seguro para nós” (Esdras 8:21), com a mesma expressão no hebraico.

  8. Salmos 107:8

    O primeiro refrão de louvor. O hebraico diz simplesmente ‘deem graças ao SENHOR pelo seu chesed’, que a Bíblia Portuguesa Mundial verte como “amor leal”, a lealdade da aliança. Os que agradecem são os próprios viajantes resgatados, e agradecem pelo que ele fez aos “filhos dos homens”, os seres humanos em geral.

  9. Salmos 107:9

    “Anelante” é shoqeqah, inquieta, ressequida, correndo de um lado para outro, a palavra que Isaías 29:8 usa para o homem sedento que sonha que bebe e acorda ainda com sede. O cântico de Maria retoma a segunda metade: “Ele encheu de bens os famintos” (Lucas 1:53).

Salmos 107:1-9

Bíblia Portuguesa Mundial

1Deem graças ao SENHOR, porque ele é bom, porque o seu amor leal dura para sempre.

2Digam-no os redimidos pelo SENHOR, os quais ele redimiu da mão do adversário,

3e congregou das terras, do oriente e do ocidente, do norte e do sul.

4Eles vagaram pelo deserto, por um caminho solitário. Não encontraram cidade para habitar.

5Famintos e sedentos, a alma deles desfalecia neles.

6Então clamaram ao SENHOR em sua angústia, e ele os livrou das suas aflições.

7Ele também os conduziu por um caminho reto, para que fossem a uma cidade para habitar.

8Que eles louvem ao SENHOR pelo seu amor leal, por suas maravilhas para com os filhos dos homens!

9Pois ele satisfaz a alma anelante. Ele enche de bens a alma faminta.

Salmos 107:10-16

As portas da prisão não se abrem sozinhas

Os prisioneiros do Salmo 107 não são descritos como vítimas inocentes de um confinamento inexplicado. A rebelião deles contra as palavras de Deus é nomeada como parte de como chegaram às trevas e ao ferro. O Livro dos Salmos consegue atribuir responsabilidade sem deixar o resgate fora de alcance. Eles caem sob o trabalho forçado, descobrem que nenhum auxílio humano pode levantá-los, e clamam da condição que a própria conduta ajudou a produzir. A resposta é tão física quanto a prisão: as amarras se rompem, os portões de bronze se quebram, as barras de ferro são cortadas. A liberdade não é apresentada como um sentimento interior enquanto a porta trancada permanece fechada. A imagem mede o livramento contra a força daquilo que os prendia. Ao mesmo tempo, a seção não convida a reconstruir uma cadeia antiga específica. Seu ponto é mais forte e mais simples: os que não conseguem abrir o próprio confinamento são tirados de lá quando clamam àquele cuja força excede as barras.

Salmos 107:10-16: As portas da prisão não se abrem sozinhas
Cena do capítuloSalmos 107

Estudo aprofundado

Diferentemente dos andarilhos, esses prisioneiros recebem uma explicação explícita de sua condição: rebelaram-se contra as palavras de Deus e rejeitaram seu conselho. O salmo pode nomear a culpa sem tornar a misericórdia indisponível. O trabalho os abate, nenhum ajudador aparece, e seu clamor é atendido. Portanto, o padrão recorrente de resgate inclui pessoas cujo sofrimento está ligado à própria conduta, não apenas aquelas cujo perigo chega sem causa declarada.

A linguagem de correntes rompidas se amplia para portões de bronze despedaçados e barras de ferro cortadas. A libertação diz respeito a mais que um sentimento interior enquanto a prisão permanece intacta. As barreiras que tornam a saída impossível são vencidas. Ao mesmo tempo, não é preciso forçar a imagem a ser uma reconstrução de uma prisão antiga específica. Sua função é clara dentro do poema: as pessoas não conseguem desfazer o confinamento que as prende, e o livramento é medido diante da força desse confinamento.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:10

    “Sombra da morte” é tsalmavet, trevas profundas, a palavra de Salmos 23:4. Isaías 42:7 fala de “tirar da prisão os que estão sentados nas trevas”. A expressão “em aflição e em ferros” junta o sofrimento às correntes que o causam.

  2. Salmos 107:11

    “Desprezaram” é na’ats, rejeitar com desdém. Este é o único lugar do salmo em que Deus é chamado de “Altíssimo”, Elyon, o que aumenta o peso do que foi rejeitado. 2 Crônicas 36:16 dá a mesma razão para o exílio: eles “zombaram dos mensageiros de Deus, desprezaram as suas palavras”.

  3. Salmos 107:12

    “Trabalho árduo” é amal, a labuta pesada, o trabalho forçado dos presos. “Não havia ninguém para ajudar” é o lamento de Lamentações 1:7 sobre Jerusalém tomada: “não houve quem a ajudasse”. Eles caem onde nenhuma mão se estende para levantá-los.

  4. Salmos 107:13

    O segundo clamor. Aqui “clamaram” se escreve za’aq, forma variante do tsa’aq do versículo 6, com o mesmo sentido. “Salvou” é hoshi’a, verbo diferente do “livrou” do versículo 6, a raiz do nome Josué. Os presos que se rebelaram recebem a mesma audiência que os viajantes perdidos.

  5. Salmos 107:14

    Jeremias 30:8 promete ao cativeiro de Jacó: “quebrarei o jugo dele de sobre o seu pescoço, e romperei as suas correntes”. As trevas e a sombra da morte do versículo 10 são repetidas para que o resgate responda à prisão ponto por ponto.

  6. Salmos 107:15

    O segundo refrão de louvor, palavra por palavra igual ao primeiro. Aqui o amor leal é agradecido por gente que, como diz o versículo 11, se rebelou e desprezou o conselho. O mesmo chesed é dado aos culpados e aos que apenas se perderam.

  7. Salmos 107:16

    A linha é quase idêntica à promessa de Deus a Ciro em Isaías 45:2: “Despedaçarei as portas de bronze e cortarei as trancas de ferro.” As portas das cidades eram revestidas de bronze e travadas com vigas de ferro, as fechaduras mais fortes que o mundo antigo conhecia.

Salmos 107:10-16

Bíblia Portuguesa Mundial

10Alguns se assentaram nas trevas e na sombra da morte, presos em aflição e em ferros,

11porque se rebelaram contra as palavras de Deus, e desprezaram o conselho do Altíssimo.

12Portanto, ele abateu o coração deles com trabalho árduo. Eles caíram, e não havia ninguém para ajudar.

13Então clamaram ao SENHOR em sua angústia, e ele os salvou das suas aflições.

14Ele os tirou das trevas e da sombra da morte, e quebrou as suas correntes.

15Que eles louvem ao SENHOR pelo seu amor leal, por suas maravilhas para com os filhos dos homens!

16Pois ele quebrou as portas de bronze, e despedaçou as trancas de ferro.

Salmos 107:17-22

A palavra alcança os portões da morte

A terceira cena de aflição traz pessoas tão abatidas que o próprio apetite desaparece. O Salmo 107 os chama de insensatos por causa da transgressão, mas O Livro dos Salmos mantém esse juízo ligado a este grupo em vez de transformá-lo em explicação universal para toda doença. A condição deles é mostrada através do corpo: a comida torna-se repulsiva, e os portões da morte parecem próximos. A resposta de Deus vem por meio de uma palavra enviada que cura e livra. Essa simplicidade é quase surpreendente depois de tanto detalhe corporal. Os que mal conseguiam comer são restaurados não apenas à vida, mas à gratidão pública. A ação de graças torna-se sacrifício e fala. Espera-se deles que declarem com alegria o que aconteceu. Por isso a seção vai de uma boca que não consegue receber alimento a uma boca capaz de testemunhar. A cura os devolve à participação, e não apenas a uma sobrevivência privada.

Salmos 107:17-22: A palavra alcança os portões da morte
Cena do capítuloSalmos 107

Estudo aprofundado

A terceira cena novamente liga a aflição ao erro, chamando os que sofrem de “tolos” por causa de suas transgressões. Essa descrição pertence a este grupo, não a uma afirmação geral de que toda pessoa enferma adoeceu por um pecado específico. Sua condição é transmitida pela rejeição do alimento e pela proximidade dos portões da morte. O poema passa do desaparecimento de um apetite necessário ao quase desaparecimento da própria vida.

Deus envia sua palavra e os cura. O resgate não exige uma disputa com a morte descrita em detalhes; a fala divina alcança onde sua força debilitada não consegue. A ação de graças então assume duas formas: sacrifício e declaração. Os sobreviventes devem oferecer gratidão e tornar conhecidas as obras com alegria. O movimento os restaura não apenas como corpos vivos, mas como participantes da adoração e da fala pública. Aqueles que mal conseguiam receber alimento agora podem contribuir com um relato de livramento para a comunidade reunida.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:17

    “Tolos” é evilim, os insensatos morais de Provérbios, que “desprezam a sabedoria e a instrução” (Provérbios 1:7). Algumas versões modernas mudam uma letra e leem ‘doentes’, o que combina com o versículo seguinte. O hebraico, como está, liga esta doença aos pecados dos próprios sofredores, embora o salmo não diga que toda enfermidade venha assim.

  2. Salmos 107:18

    Eliú descreve a mesma fase da doença em Jó 33:20: “a sua vida abomina o pão, e a sua alma a comida saborosa”, e depois fala de um mensageiro que traz cura. “Portas da morte” é a expressão que Deus usa com Jó: “As portas da morte já foram reveladas a você?” (Jó 38:17).

  3. Salmos 107:19

    O terceiro clamor. A Bíblia Portuguesa Mundial põe este refrão no presente, como fará com o quarto, embora a forma verbal hebraica seja a mesma nos quatro; a variação é dos tradutores. Um homem doente demais para comer ainda consegue clamar, e o clamor é tudo o que se exige.

  4. Salmos 107:20

    A palavra é enviada como um mensageiro, como em Salmos 147:15, “A sua palavra corre muito velozmente”. “Sepulturas” é shechitot, covas, os buracos para onde eles escorregavam. Nenhum médico e nenhum remédio são mencionados: a própria palavra cura.

  5. Salmos 107:21

    O terceiro refrão de louvor. Nem os viajantes, nem os presos, nem os doentes, nem os marinheiros são jamais identificados como israelitas; o refrão fala dos “filhos dos homens”, bene adam. O salmo coloca os resgates numa escala humana, e não nacional.

  6. Salmos 107:22

    A oferta de gratidão, zevach todah, tinha de ser comida no mesmo dia em que era oferecida (Levítico 7:15), o que significava convidar família e vizinhos para partilhar a carne. A ação de graças era uma refeição, além de um sacrifício, com o curado contando à mesa o que tinha acontecido.

Salmos 107:17-22

Bíblia Portuguesa Mundial

17Os tolos são afligidos por causa da sua desobediência, e por causa das suas iniquidades.

18A alma deles abomina todo tipo de comida. Eles se aproximam das portas da morte.

19Então clamam ao SENHOR em sua angústia, e ele os salva das suas aflições.

20Ele envia a sua palavra, e os cura, e os livra das suas sepulturas.

21Que eles louvem ao SENHOR pelo seu amor leal, por suas maravilhas para com os filhos dos homens!

22Que eles ofereçam os sacrifícios de ação de graças, e declarem as suas obras com cânticos de alegria.

Salmos 107:23-32

Marinheiros experientes chegam ao limite de sua habilidade

Os marinheiros do Salmo 107 sabem o que fazem. Descem ao mar a negócios, o que torna mais marcante o seu colapso na tempestade. O Livro dos Salmos não os acusa da rebelião atribuída aos grupos anteriores. O aperto aqui não é apresentado como pena moral. Em vez disso, a competência profissional alcança um limite. As ondas os lançam aos céus e às profundezas, os corpos cambaleiam, e a Bíblia Portuguesa Mundial diz que eles «ficam sem saber o que fazer». A perícia deles não se tornou inútil, mas não pode comandar o mar. O mesmo Deus que levanta a tempestade também a acalma, e o resgate é medido pela calmaria e pelo porto desejado. A ação de graças então deixa o navio e entra na assembleia do povo e no assento dos anciãos. Um perigo encontrado em um ofício especializado torna-se material para o louvor de toda a comunidade.

Salmos 107:23-32: Marinheiros experientes chegam ao limite de sua habilidade
Cena do capítuloSalmos 107

Estudo aprofundado

Essas pessoas vão ao mar por causa do trabalho. O salmo não as acusa da rebelião atribuída aos grupos anteriores. Essa diferença impede que a sequência se torne uma fórmula na qual toda dificuldade seja punição pelo mesmo tipo de falta. Sua habilidade profissional também não desaparece da cena; chega ao limite. A expressão conhecida sobre não saber mais o que fazer, que a Bíblia Portuguesa Mundial traduz como «ficam sem saber o que fazer», coloca a capacidade humana de encontrar soluções diante de um perigo grande demais para ela.

O movimento da tempestade é retratado por mudanças violentas de altura e pelo cambalear de pessoas que já não conseguem se manter firmes. Deus é nomeado como aquele que comanda o vento e depois acalma a tempestade. O resgate não é apenas uma mudança de tempo afortunada dentro do relato do poema. O porto desejado responde ao mar desordenado, e a ação de graças pertence à assembleia do povo e aos anciãos. Um perigo profissional particular se torna testemunho público.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:23

    No texto hebraico, os escribas puseram letras nun invertidas em volta desta seção do salmo, sinal que o Talmude (Rosh Hashaná 17b) discute e cujo propósito ainda se debate. Os navios “descem” ao mar porque a praia fica abaixo da terra. Entre as poucas aventuras marítimas de Israel está a frota de Salomão em Eziom-Geber (1 Reis 9:26).

  2. Salmos 107:24

    “Profundezas” é metsulah, o mar fundo, a palavra que Jonas usa na sua oração: “tu me lançaste nas profundezas, no coração dos mares” (Jonas 2:3). Os marinheiros veem o que a gente de terra nunca vê, inclusive as maravilhas que podem afogá-los.

  3. Salmos 107:25

    “Ordena” é literalmente ‘ele disse’: Deus fala e o vento se levanta. Jonas 1:4 tem a mesma ordem dos fatos: “o SENHOR mandou um grande vento sobre o mar, e houve uma tempestade tão violenta no mar”. O “vento tempestuoso” é ruach se’arah, um vendaval.

  4. Salmos 107:26

    “Se derrete” é o verbo de Êxodo 15:15, “Todos os habitantes de Canaã se derreteram”, usado para a coragem que se dissolve. O navio sobe “aos céus” e cai nas tehomot, as profundezas, e o estômago vai junto.

  5. Salmos 107:27

    “Ficam sem saber o que fazer” é literalmente ‘toda a sua sabedoria é engolida’. Chokhmah, sabedoria, é também a palavra para a perícia do artesão (Êxodo 28:3), e Ezequiel 27:8 chama os pilotos de Tiro de “Seus homens sábios”. A tempestade engoliu a arte de navegar deles.

  6. Salmos 107:28

    O quarto clamor. O verbo do resgate desta vez é hotsi, tirar para fora, o verbo do êxodo: “Eu sou o SENHOR, o seu Deus, que o tirou da terra do Egito” (Êxodo 20:2). Os verbos de resgate mudam de refrão para refrão: livrou, salvou, salva, e agora tira.

  7. Salmos 107:29

    “Calmaria” é demamah, uma quietude sussurrada, a palavra da “voz mansa e delicada” em Horebe (1 Reis 19:12), qol demamah daqqah. As ondas “se aquietam”, silenciadas, como se o mar tivesse recebido ordem de ficar quieto.

  8. Salmos 107:30

    “Porto” é machoz, palavra que só aparece aqui, aparentada com um termo acádico para cidade portuária ou entreposto. Marinheiros que foram ao mar a negócios são levados ao porto que buscavam. A “calmaria” descreve a água tanto quanto os homens.

  9. Salmos 107:31

    O quarto e último refrão de louvor. Os marinheiros são o único dos quatro grupos a quem não se atribui culpa nenhuma; o perigo deles vem do trabalho, e não de um erro. Depois deste versículo os refrões param e o salmo muda de forma.

  10. Salmos 107:32

    O “assento dos anciãos” é o conselho que se reunia à porta da cidade, como os líderes de Belém se sentaram quando Boaz resgatou Rute (Rute 4:1–2). O resgate de um marinheiro deve ser contado não só no culto, mas diante dos homens que governam a cidade.

Salmos 107:23-32

Bíblia Portuguesa Mundial

23Aqueles que descem ao mar em navios, que fazem negócios nas grandes águas,

24estes veem as obras do SENHOR, e as suas maravilhas nas profundezas.

25Pois ele ordena, e levanta o vento tempestuoso, que eleva as suas ondas.

26Eles sobem aos céus; descem novamente às profundezas. A alma deles se derrete por causa da aflição.

27Eles cambaleiam de um lado para o outro, e tropeçam como um homem bêbado, e ficam sem saber o que fazer.

28Então clamam ao SENHOR em sua angústia, e ele os tira da sua aflição.

29Ele transforma a tempestade em calmaria, de modo que as suas ondas se aquietam.

30Então eles se alegram porque há calmaria, e assim ele os leva ao porto desejado.

31Que eles louvem ao SENHOR pelo seu amor leal, por suas maravilhas para com os filhos dos homens!

32Que eles também o exaltem na assembleia do povo, e o louvem no assento dos anciãos.

Salmos 107:33-38

A paisagem pode mudar de significado

As cenas de resgate repetido do capítulo finalmente dão lugar à própria terra mudando de caráter. Os rios viram deserto, a terra fértil vira estéril, e o solo seco vira fontes. O Livro dos Salmos torna a paisagem reversível em vez de fixa. Um lugar que parece permanentemente fértil pode ser esvaziado, enquanto um terreno que parece inútil pode tornar-se local de povoamento, campos, vinhas, famílias e rebanhos. Os famintos não recebem apenas uma refeição e seguem adiante. São lhes dadas condições em que uma vida duradoura pode criar raiz. O trabalho humano pertence ao interior da bênção, porque eles constroem, semeiam e plantam. A provisão divina não apaga o cultivo. Os primeiros viajantes do capítulo procuravam uma cidade para habitar; agora os famintos são mostrados fundando uma. O resgate tornou-se mais lento, comunitário e agrícola sem tornar-se menos dependente daquele que dá.

Salmos 107:33-38: A paisagem pode mudar de significado
Cena do capítuloSalmos 107

Estudo aprofundado

As cenas repetidas de resgate agora dão lugar a uma visão mais ampla da terra. Um lugar frutífero pode se tornar estéril por causa da perversidade de seus habitantes, enquanto um deserto pode se tornar lugar de fontes. As duas direções impedem que a paisagem seja tratada como permanentemente fixada na abundância ou na privação. Sua condição presente não é a palavra final na descrição da ação divina feita pelo salmo.

Os famintos são estabelecidos onde podem construir uma cidade, semear campos, plantar vinhas e receber uma colheita. Esse é um retrato de resgate mais lento que o súbito apaziguamento da tempestade. O cultivo humano tem lugar dentro da dádiva: a terra é provida, e os habitantes a trabalham. Famílias e rebanhos que se multiplicam completam a imagem de uma vida duradoura. A busca do primeiro grupo por uma cidade habitada se ampliou para uma comunidade capaz de estabelecer e sustentar uma.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:33

    Isaías 50:2 usa a mesma inversão como ameaça: “Torno os rios em um deserto.” Isaías 42:15 diz: “Tornarei os rios em ilhas, e secarei os lagos.” O Deus que resgata da água pode também tirá-la O versículo 35 vai desfazer esta seca com as mesmas palavras, em ordem inversa.

  2. Salmos 107:34

    “Deserto de sal” é melechah, terra salgada. A planície de Sodoma era “bem regada em toda parte” e “como o jardim do SENHOR” (Gênesis 13:10) antes de ser destruída, e Deuteronômio 29:23 descreve uma terra assim como “enxofre, sal e terra queimada”.

  3. Salmos 107:35

    Isaías 41:18 é quase idêntico: “Farei do deserto um lago de água, e da terra seca, mananciais de água.” O “lago” é agam, um açude ou lagoa, o avesso do versículo 33 dito com as mesmas palavras.

  4. Salmos 107:36

    Em Salmos 105:44, Israel herdou “o trabalho dos povos”, cidades que não construiu. Aqui os famintos são assentados em terra recuperada e preparam a cidade eles mesmos. “Faz habitar” é da raiz de moshav, de modo que a morada que faltava aos viajantes do versículo 4 agora é construída à mão.

  5. Salmos 107:37

    Isaías 65:21 promete exatamente isto: “Eles construirão casas e as habitarão. Eles plantarão vinhas e comerão o seu fruto.” Jeremias mandou os exilados na Babilônia fazerem o mesmo (Jeremias 29:5). Os “frutos da colheita” são o rendimento de uma safra recolhida.

  6. Salmos 107:38

    “Se multiplicam grandemente” é a bênção de Gênesis 1:28 e o crescimento de Israel no Egito (Êxodo 1:7). Deuteronômio 7:14 prometera que não haveria esterilidade no meio do povo, “nem entre o seu rebanho”. O gado era riqueza, e um rebanho que não diminuía era segurança.

Salmos 107:33-38

Bíblia Portuguesa Mundial

33Ele transforma rios em deserto, fontes de água em terra sedenta,

34e uma terra frutífera em um deserto de sal, por causa da maldade dos que nela habitam.

35Ele transforma um deserto em um lago de água, e uma terra seca em fontes de água.

36Ali ele faz habitar os famintos, para que preparem uma cidade para habitar,

37semeiem campos, plantem vinhas, e colham os frutos da colheita.

38Ele também os abençoa, de modo que se multiplicam grandemente. Ele não permite que o seu gado diminua.

Salmos 107:39-43

Poder e pobreza não permanecem nos lugares atribuídos a eles

O Salmo 107 se recusa a congelar as posições sociais tanto quanto se recusa a congelar as paisagens. Comunidades podem ser diminuídas pela opressão e pela tristeza. Príncipes podem perder posição e vaguear onde não há caminho. Os pobres podem ser levantados da aflição e cercados de famílias que florescem. O Livro dos Salmos torna a inversão deliberadamente desconfortável para quem supõe que poder e pobreza pertencem naturalmente ao lugar onde são encontrados. Os andarilhos do começo eram pessoas necessitadas sem rota; agora os príncipes podem ocupar essa mesma desorientação. Enquanto isso, os que antes estavam embaixo podem tornar-se estabelecidos. O chamado final à sabedoria não oferece um lema único que explique cada inversão. Ele pede observação. Entender a misericórdia do SENHOR é atentar para o juízo, o resgate, a provisão, a mudança social e os clamores repetidos sem reduzi-los a uma só causa. A sabedoria nota o capítulo inteiro, e não apenas a cena que confirma uma teoria fácil.

Estudo aprofundado

O relato não termina em um povoado próspero como se a opressão nunca pudesse retornar. O povo pode voltar a ser abatido pela aflição e pela tristeza. Os príncipes então são expostos ao desprezo e levados a vagar, enquanto os pobres são erguidos e suas famílias crescem como um rebanho. Essa disposição inverte a cena inicial com força especial: vagar já não é apenas a situação dos sem poder, e a abundância estabelecida já não é reservada àqueles que já possuem posição social.

Os justos veem e se alegram, enquanto a iniquidade perde sua resposta. O apelo final à sabedoria pede atenção a esses movimentos variados como expressões da benignidade do Senhor. Portanto, compreender envolve a sequência inteira, incluindo juízo, provisão, restauração e inversão social. Nenhuma cena recebe permissão para engolir todas as outras. O refrão repetido ensinou uma resposta comum sem fingir que toda vida resgatada começou na mesma dificuldade.

Percurso versículo por versículo

  1. Salmos 107:39

    O sujeito não é claro: podem ser os mesmos colonos passando por tempos difíceis, ou, como muitas traduções modernas entendem, os opressores cuja queda o versículo 40 descreve em seguida. Três substantivos se empilham: opressão, aflição e tristeza, e o verbo de “diminuídos” desfaz o “se multiplicam” do versículo anterior.

  2. Salmos 107:40

    O versículo é feito de duas linhas de Jó 12: “Ele derrama desprezo sobre os príncipes” (12:21) e “os faz vagar em um deserto onde não há caminho” (12:24). Os príncipes acabam no mesmo ermo sem trilha de onde os viajantes perdidos do versículo 4 foram resgatados.

  3. Salmos 107:41

    Ana cantou que Deus “levanta o pobre do pó” para fazê-lo “assentar-se com os príncipes” (1 Samuel 2:8). “Levanta” aqui é pôr no alto, fora do alcance do mal. Jó 21:11 fala de casas que “deixam sair os seus pequeninos como um rebanho”, imagem de uma família numerosa.

  4. Salmos 107:42

    Duas linhas de Jó de novo: “Os justos veem isso e se alegram” (Jó 22:19) e “a injustiça fecha a sua boca” (Jó 5:16). A maldade é imaginada como alguém calado no meio da vanglória, sem mais nada a dizer.

  5. Salmos 107:43

    O livro de Oseias termina quase do mesmo jeito: “Quem é sábio, para que entenda estas coisas?” (Oseias 14:9). “Atos de amor leal” está no plural no hebraico, chasdei, as misericórdias, uma para cada resgate descrito. “Prestará atenção” é shamar, observar com cuidado e guardar.

Salmos 107:39-43

Bíblia Portuguesa Mundial

39Novamente, eles são diminuídos e abatidos pela opressão, aflição e tristeza.

40Ele derrama desprezo sobre os príncipes, e os faz vagar em um deserto sem caminhos.

41Contudo, ele levanta o necessitado da sua aflição, e multiplica as suas famílias como um rebanho.

42Os retos verão isso, e se alegrarão. Todos os ímpios fecharão as suas bocas.

43Quem for sábio prestará atenção a estas coisas. Eles considerarão os atos de amor leal do SENHOR.

Questões para manter em mente durante a leitura

  1. Acompanhe o falante, as imagens, linhas paralelas, perguntas e movimento emocional.
  2. Observe onde o sofrimento ou a tensão impedem uma resposta fácil.
  3. Leia um provérbio como sabedoria para discernir, não como promessa mecânica fora do contexto.

Primeiro o texto

Onde os leitores divergem

O resumo começa com o que a passagem diz e como suas partes se relacionam. Ele não presume que uma denominação já resolveu todas as questões. A dependência de uma tradição, teoria literária ou reconstrução histórica é claramente identificada.

O texto bíblico aparece primeiro. As conclusões interpretativas são identificadas, e as diferenças surgem quando ajudam a explicar por que comunidades sérias nem sempre chegam à mesma resposta.

As notas interpretativas comparativas deste capítulo estão em preparação. Até que as notas revisadas estejam prontas, esta página separa o texto bíblico do resumo e da aplicação sem afirmar que leitores responsáveis concordam em todas as questões.

Questões sob a superfície

  1. Que parte de Salmos 107 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?
  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?
  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Salmos 107?
  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Perguntas para uma reflexão pessoal séria

Estas perguntas são intencionalmente abertas. Permaneça com a tensão da passagem, responda com honestidade e volte à Escritura antes de chegar a uma conclusão.

Observe sem pressa

  1. Que parte de Salmos 107 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?

  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?

  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Agradecimento pelo resgate vindo de todo lado, e depois o capítulo mais longo da Bíblia: um alfabeto de estrofes girando todas em torno de um assunto, a palavra de Deus, de um homem que diz que ela é lâmpada para os seus pés e luz para o seu caminho.?

  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Examine seu interior com honestidade

  1. Com qual pessoa, resposta, medo ou desejo da passagem você mais se identifica neste momento?

  2. Que suposição sua sobre Deus, outras pessoas ou você mesmo este texto desafia?

  3. Que parte você preferiria suavizar, evitar ou explicar depressa demais? O que essa reação pode revelar?

  4. Se esta Escritura pudesse fazer uma pergunta direta a você, qual seria?

Responda com sabedoria e coragem

  1. O que você precisa lembrar, confessar, lamentar, agradecer ou confiar depois de ler esta passagem?

  2. Como outra pessoa fiel poderia ler esta situação de modo diferente sem ignorar o texto?

  3. Que resposta obediente seria difícil, desconfortável ou lenta, mas ainda fiel à Escritura?

  4. Que pergunta você levará à oração nesta semana e quais versículos manterá diante de si?

Ouça e assista junto com a passagem

A mídia relacionada aparece somente quando sua referência bíblica coincide com esta unidade. Use música e vídeo como companhia e depois retorne ao texto.

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Fonte: eBible.org · porbrbsl · obtido 2026-09-20