Uma voz no deserto e um nome vindo do céu

Lucas 3

O panorama

O Livro de Lucas cerca o ministério de João com os nomes de governantes e sacerdotes, e depois envia a palavra decisiva para outro lugar inteiramente: o deserto. A linguagem de Isaías sobre abrir caminho dá escala à pregação de João, enquanto suas respostas práticas dão ao arrependimento um guarda-roupa e uma folha de pagamento surpreendentemente comuns. A especulação da multidão sobre João é respondida por sua recusa em assumir o título maior. Ele aponta para além da água, ao que vem com o Espírito Santo, o fogo e o juízo, e depois paga com a prisão seu confronto com Herodes. Jesus entra em cena entre os batizados e está orando quando o céu se abre, o Espírito desce e a voz o nomeia Filho amado. O Livro de Lucas então traça sua ascendência para trás, por Davi e Abraão, até Adão e Deus. O capítulo vai assim dos governantes públicos à profecia do deserto, do fruto visível na conduta diária à filiação declarada do céu, e da história de Israel a um horizonte humano que alcança o primeiro homem. A identidade é estabelecida antes que o deserto a teste.

Neste capítulo

Lucas 3: Uma voz no deserto e um nome vindo do céu
Cena do capítuloLucas 3

A Escritura ao lado do resumo

Lucas · Bíblia Portuguesa Mundial · 38

Lucas 3:1-6

A palavra vem ao deserto

O Livro de Lucas acumula nomes públicos no início do ministério de João: imperador, governador, tetrarcas, sumos sacerdotes. Depois, montado esse mapa de autoridade reconhecida, ele diz que a palavra de Deus veio a João no deserto. O contraste é difícil de ignorar sem que seja preciso desprezar estruturas políticas ou religiosas. Os governantes datam o momento; não o iniciam. A imagem do caminho em Isaías explica então o que significa o trabalho de João no deserto. Os vales se levantam, os montes descem, os caminhos tortuosos se endireitam, e "toda a carne verá a salvação de Deus". Isso é preparação para a chegada do Senhor, não apenas uma descrição pitoresca do lugar onde um pregador se encontra. O batismo de João está ligado ao arrependimento e à remissão de pecados, com a conduta transformada da seção seguinte já esperando para mostrar como esse arrependimento se parece. Ao mesmo tempo, o Livro de Lucas não transforma o batismo em uma transação na qual boa conduta suficiente compra o perdão. O povo está sendo preparado para alguém que vem, e a imagem do caminho mantém ali o centro de gravidade.

Lucas 3:1-6: A palavra vem ao deserto
Cena do capítuloLucas 3

Estudo aprofundado

A abertura reúne uma lista extensa de autoridades, mas nenhuma recebe a palavra que inicia a ação. Ela vem a João no deserto. A organização de Lucas coloca a iniciativa profética ao lado das estruturas públicas sem confundir a autoridade em um mapa político com a autoridade da mensagem. A datação também ancora o ministério em um contexto específico, em vez de tratar o deserto como lugar fora da história.

Isaías 40:3-5 fornece mais que uma descrição memorável da localização de João. Suas imagens de abertura de caminhos pertencem à preparação para a chegada do Senhor: vales elevados, montanhas rebaixadas, caminhos endireitados. Lucas prolonga a citação até a visão da salvação de Deus por “toda carne”. A linguagem geográfica e o horizonte humano ampliado, portanto, pertencem ao mesmo anúncio.

O batismo de João está ligado ao arrependimento e à remissão dos pecados. A lavagem não pode ser separada da resposta transformada exigida nos versículos seguintes. Da mesma forma, Lucas não diz que seu público conquista o perdão completando uma lista de realizações impressionantes. A preparação diz respeito a um povo sendo aprontado para aquele que vem.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 3:1

    Tibério se tornou imperador em 14 d.C., de modo que o seu décimo quinto ano cai por volta de 28–29 d.C. Tetrarca era literalmente o governante de uma quarta parte, e na época qualquer governante menor abaixo de um rei. Críticos diziam que o único Lisânias conhecido morrera décadas antes, até que uma inscrição em Abila nomeou um Lisânias tetrarca no tempo de Tibério.

  2. Lucas 3:2

    Anás foi sumo sacerdote de 6 a 15 d.C. e foi deposto por Roma, mas cinco filhos seus e o genro Caifás ocuparam o cargo depois dele; o grego diz “sumo sacerdócio” no singular, com dois nomes. “A palavra de Deus veio a” é a fórmula que abre livros proféticos como Jeremias (1:1–2).

  3. Lucas 3:3

    “A região ao redor do Jordão” é a expressão que o Antigo Testamento grego usa para a planície do Jordão que Ló escolheu para si (Gênesis 13:10–11). Lucas não diz nada sobre os pelos de camelo nem os gafanhotos de João; descreve a mensagem, não a aparência do homem.

  4. Lucas 3:4

    O “livro” é um rolo. No hebraico de Isaías 40:3 o caminho a preparar está no deserto. O grego, seguido aqui, põe a voz no deserto, que é exatamente onde João está.

  5. Lucas 3:5

    “Rebaixados” é o verbo que está por trás da exaltação dos humildes no cântico de Maria (1:52), de modo que o nivelamento da terra retoma o nivelamento das pessoas. Os reis mandavam limpar e aplainar as estradas antes de uma visita real; Isaías 62:10 manda aterrar a estrada e tirar as pedras.

  6. Lucas 3:6

    A citação de Lucas omite a parte de Isaías 40:5 sobre a glória do SENHOR revelada e passa direto a “Toda a carne verá”. A palavra “salvação” volta no fim de Atos, quando Paulo diz que a salvação de Deus foi enviada aos gentios (Atos 28:28).

Lucas 3:1-6

Bíblia Portuguesa Mundial

1No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, Herodes tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe tetrarca da região da Itureia e Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene,

2durante o sumo sacerdócio de Anás e Caifás, a palavra de Deus veio a João, filho de Zacarias, no deserto.

3Ele percorreu toda a região ao redor do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão de pecados.

4Como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: 'Preparem o caminho do Senhor. Endireitem as suas veredas.

5Todo vale será aterrado. Todo monte e colina serão rebaixados. Os caminhos tortuosos se tornarão retos, e os caminhos acidentados serão aplainados.

6Toda a carne verá a salvação de Deus.'”

Lucas 3:7-14

O arrependimento alcança o guarda-roupa e o pagamento

A advertência de João corta um refúgio possível antes que alguém possa alcançá-lo: "Temos Abraão por pai". O problema não é Abraão nem as promessas de Deus a ele. É a ascendência usada como substituto do fruto que o arrependimento deve produzir agora. O machado à raiz torna essa urgência inconfundível. Então a multidão faz a pergunta maravilhosamente prática: "O que devemos fazer, então?". As respostas de João não são teatrais. Compartilhar uma segunda túnica. Compartilhar comida. Os cobradores de impostos devem parar de exigir mais do que o designado. Os soldados devem parar de usar violência e falsa acusação para lucrar, e contentar-se com o salário. O arrependimento alcança o armário, a mesa, a arrecadação e o exercício do poder coercitivo. As respostas também se ajustam a quem pergunta, em vez de tratar cada ouvinte como se um único problema profissional explicasse todos. O Livro de Lucas deixa sem declarar a identidade exata dos soldados. A força moral não precisa de uma reconstrução da unidade militar. Está na conduta concreta que pode ferir ou ajudar as pessoas diante deles.

Estudo aprofundado

A advertência de João sobre Abraão confronta uma pretensão de isenção, e não o lugar de Abraão nas promessas de Deus. A descendência não pode substituir o fruto exigido agora. O machado à raiz torna urgente a advertência; não é uma sugestão para aparar alguns ramos externos enquanto a árvore permanece inalterada. A imagem diz respeito ao julgamento da ausência de fruto.

As respostas práticas são marcadamente desprovidas de teatralidade. Roupas e alimentos excedentes devem ser compartilhados. Os publicanos não recebem a ordem de se tornar outro tipo de pessoa mudando primeiro de ocupação; recebem a ordem de parar de cobrar além do valor determinado. Os soldados são orientados a abandonar a coerção e a falsa acusação e a se contentar com seu salário. O arrependimento se torna visível nos pontos em que esses ouvintes podem ferir ou ajudar outras pessoas.

As perguntas são semelhantes, mas as respostas se ajustam a quem pergunta. Lucas não identifica a unidade precisa nem a nacionalidade dos soldados, e nada aqui exige essa identificação. A linguagem de João expõe abusos associados à posição deles sem afirmar que todo membro de uma ocupação cometeu todos os abusos. A força moral vem da conduta concreta mencionada.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 3:7

    Em Mateus este insulto é dirigido a fariseus e saduceus; em Lucas é lançado à multidão inteira. A imagem pode ser a de cobras fugindo de um fogo no campo na época da colheita, o que combina com fugir “da ira que está por vir”. Paulo encontrou uma víbora expulsa pelo calor de uma fogueira em Malta (Atos 28:3).

  2. Lucas 3:8

    Em hebraico e aramaico, “filhos” (banim) e “pedras” (abanim) soam quase iguais, e muitos pensam que João faz um jogo de palavras. A margem do rio estava cheia de pedras. “Não comecem a dizer” significa: nem sequer iniciem esse raciocínio.

  3. Lucas 3:9

    O machado “já está posto” à raiz, deixado ali pronto para o uso. Isaías 10:33–34 retrata o SENHOR derrubando com ferro os matagais da floresta. O ponto da imagem é o momento: não um aviso sobre algum dia distante, mas uma ferramenta já em posição.

  4. Lucas 3:10

    A pergunta sobre o que fazer é feita três vezes nesta seção (versículos 10, 12, 14). Lucas põe a mesma pergunta na boca da multidão em Pentecostes (Atos 2:37), e um intérprete da lei e um chefe fazem uma versão dela mais adiante no evangelho (10:25, 18:18).

  5. Lucas 3:11

    A “túnica” é o chiton, a peça usada junto ao corpo; ter duas significava ter uma de reserva. O critério é simples e duro: quem tem sobra reparte com quem não tem nada.

  6. Lucas 3:12

    Os cobradores de impostos recolhiam pedágios e taxas alfandegárias, trabalhando para quem comprara das autoridades o direito de cobrá-los. Lucas os menciona mais do que qualquer outro evangelho, entre eles Levi (5:27) e Zaqueu (19:2). Eles chamam João de “Mestre” e vêm para ser batizados.

  7. Lucas 3:13

    O lucro de um cobrador vinha de exigir mais do que a taxa fixada. João não lhes manda largar o ofício; manda cobrar o devido e nada mais, o que naquele ramo chamaria a atenção.

  8. Lucas 3:14

    O verbo traduzido por extorquir com violência é literalmente sacudir alguém, arrancar dinheiro por intimidação. O de acusar falsamente é o que está por trás de “sicofanta”, aplicado de início a delatores que apresentavam acusações falsas por lucro; Zaqueu o usa ao prometer devolver quatro vezes mais (19:8). O “salário” era o dinheiro de ração do soldado.

Lucas 3:7-14

Bíblia Portuguesa Mundial

7Ele dizia, portanto, às multidões que saíam para ser batizadas por ele: “Raça de víboras, quem os avisou para fugir da ira que está por vir?

8Produzam, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comecem a dizer entre si mesmos: “Temos Abraão por pai”; pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos para Abraão!

9O machado já está posto à raiz das árvores. Toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.”

10As multidões lhe perguntavam: “O que devemos fazer, então?”

11Ele lhes respondeu: “Quem tem duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma. Quem tem comida, faça o mesmo.”

12Cobradores de impostos também vieram para ser batizados e lhe disseram: “Mestre, o que devemos fazer?”

13Ele lhes disse: “Não cobrem nada além daquilo que lhes foi estipulado.”

14Soldados também lhe perguntaram, dizendo: “E quanto a nós? O que devemos fazer?” Ele lhes disse: “Não extorquam a ninguém com violência, nem acusem ninguém falsamente. Contentem-se com o seu salário.”

Lucas 3:15-20

João recusa o título maior

A multidão está pronta para engrandecer João, e João recusa a promoção. A expectativa deles chegou ao ponto de perguntar se ele é o Cristo, mas sua resposta alarga a distância entre ele e aquele que vem. João tem água; aquele que vem traz o Espírito Santo e fogo. João não se considera digno nem de desatar as sandálias dele. A eira então impede que a linguagem do fogo se torne enfeite inofensivo. O trigo é recolhido, a palha é queimada, e o juízo pertence ao mesmo anúncio que a promessa do Espírito. João não permitirá que a expectativa quanto à sua própria importância obscureça a obra daquele que é mais poderoso. A seção fecha com o custo dessa recusa em bajular. João repreendeu Herodes por causa de Herodias e de outros males, e Herodes acrescenta a prisão à lista. O Livro de Lucas coloca aqui a prisão antes de narrar o batismo de Jesus, um arranjo temático que não deve ser confundido com a afirmação de que a porta do cárcere se fechou antes de João batizar Jesus.

João recusa o título maior
Cena do capítuloLucas 3
Galileia e Judeia
Galileia e Judeia

Estudo aprofundado

A expectativa da multidão poderia ter permitido que João se tornasse o centro do movimento. Sua resposta, em vez disso, acentua a diferença entre ele e aquele que vem depois. Até desamarrar o calçado dessa pessoa excede a posição que João reivindica. O contraste não é uma estratégia de imagem modesta; aquele que vem agirá com o Espírito Santo e com fogo e separará o trigo da palha.

O fogo às vezes é lido principalmente como purificação e às vezes como julgamento. A imagem da eira no versículo seguinte torna o julgamento uma parte inequívoca do contexto imediato: a palha é queimada, e não melhorada. A promessa do Espírito e a advertência contra a ausência de fruto devem, portanto, permanecer juntas. Lucas posteriormente retoma a distinção de João entre água e Espírito em Atos 1:5, onde ela prepara a recepção do Espírito Santo pelos discípulos.

A prisão de João por Herodes encerra essa fase de seu ministério antes que Lucas descreva o batismo de Jesus. A organização temática não deve ser transformada em uma afirmação de que a prisão aconteceu primeiro. O ato do governante é apresentado como acréscimo aos males que João havia repreendido. Uma voz profética que recusa um título exagerado também se recusa a deixar sem denúncia a conduta de um governante.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 3:15

    O grego retrata cada um revolvendo a questão em particular. O movimento iniciado por João sobreviveu a ele: em Atos 19:1–7 Paulo encontra em Éfeso discípulos que só conheciam o batismo de João, anos depois e a centenas de quilômetros dali.

  2. Lucas 3:16

    Desamarrar sandálias era tarefa de escravo. Um dito rabínico posterior afirmava que o discípulo devia fazer pelo mestre tudo o que um escravo faz, menos desamarrar a sandália; João se coloca abaixo disso. A “correia” é a tira de couro.

  3. Lucas 3:17

    A “pá de joeirar” servia para lançar ao vento o grão debulhado; o trigo pesado cai de volta e a palha é levada para o lado. Limpar “completamente a eira” é deixar a área de debulha inteiramente limpa, e o trigo vai para o “celeiro”. O fogo “que não se apaga” lembra o último versículo de Isaías (66:24).

  4. Lucas 3:18

    “Anunciava o evangelho” traduz o verbo para proclamar boas notícias, raiz da palavra “evangelho”. Lucas chama de boa notícia a pregação de João sobre machados, fogo e víboras, porque ela anuncia aquele que vem.

  5. Lucas 3:19

    Herodias era neta de Herodes, o Grande. Casara-se com um tio e depois o deixou pelo meio-irmão dele, Antipas, que se divorciou da esposa nabateia para ficar com ela. Levítico 18:16 proíbe tomar a mulher do irmão. Josefo chama o primeiro marido de Herodes; ele não é o tetrarca Filipe do versículo 1.

  6. Lucas 3:20

    Josefo diz que Antipas manteve João preso em Maqueronte, fortaleza a leste do Mar Morto, e o matou por temer que a influência dele sobre as multidões levasse a uma revolta. Lucas apresenta a prisão como o último e pior item do histórico de Herodes: “acrescentou a todas elas mais esta”.

Lucas 3:15-20

Bíblia Portuguesa Mundial

15Como o povo estava na expectativa, todos se perguntavam em seu íntimo a respeito de João, se talvez ele fosse o Cristo,

16João respondeu a todos: “Eu, de fato, os batizo com água, mas vem aquele que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desamarrar a correia das sandálias. Ele os batizará no Espírito Santo e em fogo.

17A sua pá de joeirar está na sua mão, e ele limpará completamente a eira, recolherá o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que não se apaga.”

18Assim, com muitas outras exortações, ele anunciava o evangelho ao povo,

19mas o tetrarca Herodes, sendo repreendido por ele por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todas as maldades que Herodes tinha feito,

20acrescentou a todas elas mais esta: mandou prender João.

Lucas 3:21-22

Oração sob o céu aberto

O Livro de Lucas dá surpreendentemente pouca atenção à mecânica do batismo de Jesus e muito mais ao que o cerca. Jesus está entre os batizados, mas também está orando quando o céu se abre. O Espírito Santo desce "em forma corpórea, como uma pomba", e a voz do céu fala diretamente a ele: "Tu és o meu Filho amado. Em ti me agrado". A semelhança visível não transforma o Espírito em uma ave, e a presença de Jesus entre os que recebem o batismo de João não fornece uma confissão de pecado que o Livro de Lucas nunca registra. A ênfase é o reconhecimento vindo do alto. Poucos versículos antes, a multidão estava incerta quanto à identidade de João; aqui o céu não está incerto quanto a Jesus. A colocação é igualmente importante. Antes que o Livro de Lucas trace a ascendência humana de Jesus e antes que o diabo o desafie com "Se você é o Filho de Deus", a filiação já foi declarada. O deserto testará o sentido e o exercício dessa identidade, não a descobrirá pela primeira vez.

Oração sob um céu aberto
Cena do capítuloLucas 3

Estudo aprofundado

Lucas descreve pouco o próprio ato do batismo. A atenção adicional recai sobre a oração, o céu aberto, a descida do Espírito e a voz. Jesus aparece entre as pessoas que são batizadas, mas a passagem não registra uma confissão de pecados feita por ele. Essa distinção impede que sua participação seja usada para dizer mais do que Lucas diz.

O Espírito desce “em forma corpórea, como uma pomba”. Lucas descreve uma semelhança visível, e não uma afirmação de que a natureza do Espírito seja a de uma ave. A voz celestial fala diretamente a Jesus como o Filho amado e expressa agrado nele. O reconhecimento não é conferido pela avaliação da multidão, que acabava de estar incerta sobre João.

A posição importa. Antes que a genealogia identifique as relações humanas de Jesus e antes que o diabo desafie sua filiação, o céu o identifica. A tentação seguinte testará o que essa filiação significa na prática, e não fornecerá a primeira ocasião em que o relato revela sua identidade.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 3:21

    Só Lucas diz que Jesus “estava orando”. Ele mostra Jesus em oração em cada ponto de virada: antes de escolher os doze (6:12), antes da confissão de Pedro (9:18), no monte da transfiguração (9:28–29) e no Monte das Oliveiras (22:41). O céu se abre enquanto ele ora.

  2. Lucas 3:22

    “Tu és o meu Filho” vem de Salmos 2:7, o salmo da coroação, e “Em ti me agrado” ecoa Isaías 42:1, onde Deus se compraz no servo escolhido. Um manuscrito antigo, o Códice de Beza, faz a voz citar Salmos 2:7 por inteiro, incluindo a geração naquele dia.

Lucas 3:21-22

Bíblia Portuguesa Mundial

21Quando todo o povo havia sido batizado, Jesus também foi batizado e estava orando. O céu se abriu,

22e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e uma voz veio do céu, dizendo: “Tu és o meu Filho amado. Em ti me agrado.”

Lucas 3:23-38

A genealogia não para em Abraão

A genealogia no Livro de Lucas começa com a suposição pública e a qualifica imediatamente: Jesus é, "como se supunha", filho de José. Esse parêntese preserva o lugar reconhecido de José sem desfazer o relato da concepção já dado no capítulo 1. Dali a lista recua por gerações, chega a Davi por meio de Natã, passa por Abraão e segue até Adão e Deus. A história da aliança de Israel permanece central, mas o Livro de Lucas se recusa a parar o horizonte humano em Abraão. Os muitos nomes realizam um trabalho literário mesmo quando quase nada mais é dito sobre a maioria dos que os carregam. A lista também difere da de Mateus, e o Livro de Lucas não explica a diferença nem rotula sua genealogia como a de Maria. As harmonizações propostas podem ser discutidas em outro lugar, mas não são afirmações que esta passagem estabeleça. Seu trabalho visível é mais claro. O Filho amado acaba de ser nomeado do céu, e agora sua linha humana termina em Adão, "filho de Deus". A tentação que se segue reunirá filiação, humanidade e obediência em um único campo de prova.

A genealogia não para em Abraão
Cena do capítuloLucas 3

Estudo aprofundado

O parêntese “como se supunha” impede que o lugar de José na genealogia desfaça o relato da concepção no capítulo 1. Lucas reconhece a relação publicamente reconhecida enquanto mantém a distinção já feita. O movimento para trás passa então por Davi através de Natã, e não de Salomão, chega a Abraão e continua até Adão. As promessas de Israel permanecem centrais, mas o horizonte humano de Jesus não se limita a Israel.

A lista de Lucas difere da de Mateus, e as explicações propostas incluem linhagens legais e biológicas, uma genealogia associada a Maria e relações de levirato. Lucas não identifica essa lista como a genealogia de Maria nem explica as diferenças; portanto, qualquer harmonização excede o que a passagem estabelece. Sua função literária visível é mais clara: depois da declaração celestial de filiação, a ascendência termina com a relação de Adão com Deus. A tentação vem imediatamente depois. A lista é uma ponte entre identidade e prova, e não um convite para inventar a vida dos muitos antepassados conhecidos aqui apenas pelo nome.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 3:23

    Aos trinta anos José se apresentou ao faraó (Gênesis 41:46), Davi começou a reinar (2 Samuel 5:4) e os levitas entravam no serviço (Números 4:3). “Começou” se refere ao início da sua obra. Mateus dá Jacó como pai de José; Lucas dá Eli. A lista de Lucas sobe de filho para pai, ao contrário da de Mateus.

  2. Lucas 3:24

    Matate é forma abreviada de Matatias, “dom do SENHOR”, nome popularizado pelo sacerdote Matatias que iniciou a revolta dos macabeus. Levi é um nome de tribo usado como nome pessoal, como o do cobrador de impostos em 5:27. Melqui significa “meu rei”. Nenhum destes cinco homens é conhecido fora desta lista.

  3. Lucas 3:25

    Dois destes antepassados têm nomes de profetas: Amós, e Naum, que significa consolo. Nagai representa um nome hebraico que quer dizer brilho. Nestas gerações a linhagem passa por famílias lembradas apenas pelo nome.

  4. Lucas 3:26

    Semei é Simei, nome comum no Antigo Testamento, levado entre outros pelo benjamita que amaldiçoou Davi quando ele fugia de Jerusalém (2 Samuel 16:5). Judá repete o nome do patriarca. Um segundo José aparece na linhagem, e um terceiro vem no versículo 30.

  5. Lucas 3:27

    Aqui a lista de Lucas toca a de Mateus: Zorobabel conduziu exilados de volta da Babilônia e lançou o alicerce do segundo templo (Esdras 3:8), e Salatiel é seu pai. Mateus faz de Salatiel filho do rei Jeconias; Lucas, filho de Neri. Alguns sugerem que Resa seja a palavra aramaica para príncipe, um título tomado por nome.

  6. Lucas 3:28

    Er é também o nome do primogênito de Judá, a quem o SENHOR fez morrer (Gênesis 38:7). Elmodã pode estar ligado a Almodá, descendente de Sem em Gênesis 10:26. São gerações entre Davi e o exílio sobre as quais o Antigo Testamento não registra absolutamente nada.

  7. Lucas 3:29

    Josué, em grego Iesous, é o mesmo nome de Jesus, de modo que um antepassado de Jesus tinha o seu nome; alguns manuscritos trazem aqui outra forma. Eliézer era o nome do mordomo de Abraão (Gênesis 15:2) e de um dos filhos de Moisés (Êxodo 18:4).

  8. Lucas 3:30

    Três filhos de Jacó aparecem em fila aqui: Simeão, Judá, José. Eliaquim era também o nome do mordomo do palácio de Ezequias, a quem Isaías anunciou que Deus daria a chave da casa de Davi (Isaías 22:22). Jonã é uma forma de Joanã.

  9. Lucas 3:31

    Natã não é o profeta, mas o filho de Davi com Bate-Seba, nascido em Jerusalém (2 Samuel 5:14, 1 Crônicas 3:5). Mateus traça a linhagem por Salomão e pelos reis; Lucas passa por um filho que nunca reinou. Zacarias 12:12 menciona a família da casa de Natã entre a casa de Davi.

  10. Lucas 3:32

    Estes cinco nomes vêm quase diretamente do fim de Rute (4:18–22). Boaz é o marido de Rute. Naassom foi príncipe de Judá no deserto (Números 1:7), e sua irmã Eliseba se casou com Arão (Êxodo 6:23), nome que Isabel carrega no capítulo 1.

  11. Lucas 3:33

    Perez nasceu de Judá e Tamar, e o seu nome significa brecha, porque rompeu primeiro no parto (Gênesis 38:29). Muitos manuscritos trazem dois nomes, Admim e Arni, onde aqui se lê Arã, um dos nós textuais desta lista. Judá é a tribo dos reis (Gênesis 49:10).

  12. Lucas 3:34

    Terá é aquele que, segundo Josué, serviu a outros deuses além do Eufrates (Josué 24:2). A linhagem passa direto por ele. Este Naor é o avô de Abraão (Gênesis 11:24), não o irmão de Abraão que tinha o mesmo nome.

  13. Lucas 3:35

    Pelegue é aquele em cujos dias a terra foi dividida (Gênesis 10:25). O nome de Éber talvez esteja por trás da palavra hebreu. Serugue, Reú e Salá também vêm da lista dos descendentes de Sem em Gênesis 11.

  14. Lucas 3:36

    Este Cainã, entre Arfaxade e Salá, não está no texto hebraico de Gênesis 11, mas aparece na tradução grega (Gênesis 11:12–13), que Lucas segue. Lameque deu nome a Noé esperando que ele trouxesse alívio da fadiga do solo (Gênesis 5:29).

  15. Lucas 3:37

    Enoque andou com Deus e desapareceu, porque Deus o tomou (Gênesis 5:24), e Judas 14 o chama de sétimo depois de Adão. Matusalém é o homem mais longevo das Escrituras, com 969 anos. Maalalel significa “louvor de Deus”. Um segundo Cainã fecha o versículo.

  16. Lucas 3:38

    Nos dias de Enos começou-se a invocar o nome do SENHOR (Gênesis 4:26). Sete foi dado no lugar de Abel, assassinado (4:25). Contando para cima, a lista de Lucas tem cerca de setenta e sete nomes, conforme o manuscrito, e só o último não é um homem.

Lucas 3:23-38

Bíblia Portuguesa Mundial

23O próprio Jesus, quando começou a ensinar, tinha cerca de trinta anos de idade, sendo filho (como se supunha) de José, filho de Eli,

24filho de Matate, filho de Levi, filho de Melqui, filho de Janai, filho de José,

25filho de Matatias, filho de Amós, filho de Naum, filho de Esli, filho de Nagai,

26filho de Maate, filho de Matatias, filho de Semei, filho de José, filho de Judá,

27filho de Joanã, filho de Resa, filho de Zorobabel, filho de Salatiel, filho de Neri,

28filho de Melqui, filho de Adi, filho de Cosã, filho de Elmodã, filho de Er,

29filho de Josué, filho de Eliézer, filho de Jorim, filho de Matate, filho de Levi,

30filho de Simeão, filho de Judá, filho de José, filho de Jonã, filho de Eliaquim,

31filho de Meleá, filho de Mená, filho de Matatá, filho de Natã, filho de Davi,

32filho de Jessé, filho de Obede, filho de Boaz, filho de Salmom, filho de Naassom,

33filho de Aminadabe, filho de Arã, filho de Esrom, filho de Perez, filho de Judá,

34filho de Jacó, filho de Isaque, filho de Abraão, filho de Terá, filho de Naor,

35filho de Serugue, filho de Reú, filho de Pelegue, filho de Éber, filho de Salá,

36filho de Cainã, filho de Arfaxade, filho de Sem, filho de Noé, filho de Lameque,

37filho de Matusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Maalalel, filho de Cainã,

38filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus.

Questões para manter em mente durante a leitura

  1. Observe o que Jesus diz e faz e como as pessoas respondem.
  2. Acompanhe reino, discipulado, oposição, cruz e ressurreição na sequência do evangelista.
  3. Deixe a doutrina posterior esclarecer a cena sem apagar seu contexto imediato.

Primeiro o texto

Onde os leitores divergem

O resumo começa com o que a passagem diz e como suas partes se relacionam. Ele não presume que uma denominação já resolveu todas as questões. A dependência de uma tradição, teoria literária ou reconstrução histórica é claramente identificada.

O texto bíblico aparece primeiro. As conclusões interpretativas são identificadas, e as diferenças surgem quando ajudam a explicar por que comunidades sérias nem sempre chegam à mesma resposta.

As notas interpretativas comparativas deste capítulo estão em preparação. Até que as notas revisadas estejam prontas, esta página separa o texto bíblico do resumo e da aplicação sem afirmar que leitores responsáveis concordam em todas as questões.

Questões sob a superfície

  1. Que parte de Lucas 3 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?
  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?
  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Lucas 3?
  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Perguntas para uma reflexão pessoal séria

Estas perguntas são intencionalmente abertas. Permaneça com a tensão da passagem, responda com honestidade e volte à Escritura antes de chegar a uma conclusão.

Observe sem pressa

  1. Que parte de Lucas 3 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?

  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?

  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Lucas 3 se desenvolve por meio de suas próprias vozes, ações, afirmações e consequências?

  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Examine seu interior com honestidade

  1. Com qual pessoa, resposta, medo ou desejo da passagem você mais se identifica neste momento?

  2. Que suposição sua sobre Deus, outras pessoas ou você mesmo este texto desafia?

  3. Que parte você preferiria suavizar, evitar ou explicar depressa demais? O que essa reação pode revelar?

  4. Se esta Escritura pudesse fazer uma pergunta direta a você, qual seria?

Responda com sabedoria e coragem

  1. O que você precisa lembrar, confessar, lamentar, agradecer ou confiar depois de ler esta passagem?

  2. Como outra pessoa fiel poderia ler esta situação de modo diferente sem ignorar o texto?

  3. Que resposta obediente seria difícil, desconfortável ou lenta, mas ainda fiel à Escritura?

  4. Que pergunta você levará à oração nesta semana e quais versículos manterá diante de si?

Ouça e assista junto com a passagem

Ainda não há mídia exata catalogada para esta passagem. O relatório de conciliação conectará novos materiais quando estiverem disponíveis.

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Fonte: eBible.org · porbrbsl · obtido 2026-09-20