As promessas encontram suas vozes

Lucas 1

O panorama

O Livro de Lucas abre com uma certeza construída sobre testemunho, e logo entra em duas casas onde promessas antigas recebem nomes específicos. Zacarias recebe boas notícias no templo e sai sem conseguir falar; Maria recebe em Nazaré um anúncio muito maior e responde sem fingir saber mais do que lhe foi dito. Isabel reconhece o que está acontecendo antes que qualquer uma das duas crianças possa falar, e o louvor de Maria estende sua própria condição humilde até a misericórdia lembrada de Deus para com Israel e Abraão. Os parentes esperam um nome conhecido da família, mas "O nome dele é João" encerra a discussão e devolve a voz a Zacarias. Mesmo então, a profecia do pai olha para além do próprio filho, na direção da salvação davídica que João preparará. O capítulo continua emparelhando vidas particulares com a longa expectativa de Israel: esterilidade e concepção, silêncio e louvor, uma jovem despercebida e um reino sem fim. Antes que qualquer dos dois ministérios comece, o Livro de Lucas já deixou claro que João e Jesus pertencem um ao outro sem ocupar o mesmo lugar.

Neste capítulo

Lucas 1: As promessas encontram suas vozes
Cena do capítuloLucas 1

A Escritura ao lado do resumo

Lucas · Bíblia Portuguesa Mundial · 80

Lucas 1:1-4

Um relato escrito para dar certeza

O Livro de Lucas começa recusando a pose do escritor solitário que despeja informação inédita sobre um leitor desprevenido. Outros já escreveram, testemunhas oculares já entregaram o que viram, e Teófilo já foi instruído. A promessa distintiva é um relato ordenado, fundado em investigação cuidadosa desse material transmitido, escrito para que a instrução repouse sobre certeza e não sobre boato. Isso torna a abertura incomumente franca quanto ao caminho pelo qual o testemunho se torna um Evangelho escrito. O Livro de Lucas distingue os acontecimentos, aqueles que os presenciaram e a tarefa posterior de organizar seu testemunho, sem separar essas etapas umas das outras. A expressão "assim como nos transmitiram aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra" pertence às testemunhas, enquanto o Livro de Lucas afirma ter investigado cuidadosamente tudo desde o princípio. Mesmo o respeitoso "excelentíssimo Teófilo" permanece contido. Um destinatário nomeado é suficiente. O Livro de Lucas não fornece profissão nem arranjo de patrocínio, e não precisa de uma biografia inventada para explicar por que vale a pena escrever um relato cuidadoso.

Lucas 1:1-4: Um relato escrito para dar certeza
Cena do capítuloLucas 1

Estudo aprofundado

Lucas não apresenta o relato como informação que ninguém ouviu antes. Muitos empreenderam relatos escritos, testemunhas oculares transmitiram seu testemunho, e Teófilo já foi instruído. A contribuição prometida é uma apresentação ordenada que fortalece a certeza. A abertura, portanto, distingue os acontecimentos, as pessoas que os testemunharam e o trabalho posterior de preservar e organizar seu testemunho. Essas etapas pertencem umas às outras sem serem tratadas como idênticas.

A expressão “desde o princípio” no versículo 2 descreve as testemunhas oculares; a afirmação do versículo 3 diz respeito ao conhecimento profundo de Lucas sobre o material. A passagem não afirma que Lucas testemunhou pessoalmente cada acontecimento que será descrito. Tampouco “em ordem” exige que cada episódio seja colocado em uma cronologia ininterrupta, dia após dia. A organização relacionará repetidamente acontecimentos por assunto e propósito. O título de Teófilo, “excelentíssimo”, é respeitoso, mas nem sua ocupação nem um suposto papel financeiro na produção do livro são fornecidos aqui. O relato começa com um destinatário nomeado, e não com uma biografia inventada.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:1

    Os versículos 1–4 formam um único período longo, num grego literário apurado, do tipo que historiadores e escritores de medicina punham no início de uma obra séria. No versículo 5 o estilo muda de repente para a cadência do Antigo Testamento grego. As coisas “que se cumpriram entre nós” são fatos levados a termo, e não apenas crenças firmes.

  2. Lucas 1:2

    O verbo traduzido por “transmitiram” é o termo técnico para passar adiante uma tradição, o mesmo que Paulo usa em 1 Coríntios 15:3. Os “ministros da palavra” são auxiliares, hyperetai, a mesma palavra que Lucas usa para o servente da sinagoga que recebe de volta o rolo em 4:20.

  3. Lucas 1:3

    “Investigar cuidadosamente” corresponde a um particípio que significa ter acompanhado de perto e com exatidão. “Desde o princípio” é anothen, desde o alto, que também pode significar do céu. “Em ordem” é palavra que só Lucas emprega no Novo Testamento. “Excelentíssimo” é o tratamento que Atos dá aos governadores Félix e Festo (23:26, 26:25).

  4. Lucas 1:4

    “Plena certeza” traduz asphaleia, segurança, chão firme, e Lucas a reserva para a última palavra do período grego. “Instruído” é katecheo, ensinar de viva voz, raiz de “catecismo”. O nome Teófilo quer dizer amigo de Deus, ou amado por Deus.

Lucas 1:1-4

Bíblia Portuguesa Mundial

1Visto que muitos empreenderam organizar uma narrativa sobre as coisas que se cumpriram entre nós,

2assim como nos transmitiram aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra,

3também me pareceu bem, depois de investigar cuidadosamente tudo desde o princípio, escrever-lhe em ordem, excelentíssimo Teófilo;

4para que você tenha plena certeza das coisas em que foi instruído.

Lucas 1:5-25

O sacerdote sai sem uma palavra

Antes que a falta de filhos apareça, o Livro de Lucas já chamou Zacarias e Isabel de justos e irrepreensíveis em seu caminho. Essa ordem impede discretamente uma equação fácil entre esterilidade e culpa escondida. O anúncio de Gabriel responde a uma dor doméstica, mas imediatamente a ultrapassa: João preparará um povo para o Senhor no espírito e no poder de Elias. O filho prometido é, portanto, profundamente pessoal e ao mesmo tempo deliberadamente secundário em relação àquele cujo caminho ele prepara. Zacarias pergunta como poderá saber, e Gabriel nomeia esse pedido pelo que ele é nesta cena, incredulidade. O sinal resultante tem uma precisão quase cômica. Um sacerdote recebe "esta boa notícia" durante o serviço público e depois volta à congregação que espera sem conseguir dizer uma palavra. Seu silêncio não cancela aquilo de que duvidou. Isabel concebe, recolhe-se por cinco meses e recebe ela mesma a frase final, descrevendo a remoção da afronta que outras pessoas haviam ligado à sua condição.

Lucas 1:5-25: O sacerdote sai sem uma palavra
Cena do capítuloLucas 1

Estudo aprofundado

Antes de mencionar a ausência de filhos, Lucas identifica Zacarias e Elizabete como justos. Essa ordem importa: a falta de um filho não é apresentada como prova de um erro escondido. Mais tarde, Elizabete menciona a vergonha pública associada à sua condição, mas o livro já separou essa vergonha da avaliação de Deus sobre o casal. A promessa entra em uma vida já existente de serviço fiel, em vez de recompensar uma melhora repentina de conduta.

A missão de João é maior que a resposta à oração de uma família. Gabriel o relaciona à obra profética de Elias e à preparação de um povo para o Senhor, recorrendo a Malaquias 4:5-6. A criança prometida não será apenas extraordinária; apontará para além de si mesma. Sua abstinência de vinho é especificada, mas Lucas não lista todas as condições de um voto de nazireu, de modo que essa identificação mais completa deve permanecer uma inferência.

Zacarias pede uma base para a certeza, e Gabriel identifica explicitamente sua resposta como incredulidade. O sinal se ajusta com precisão à cena: um sacerdote recebe boas notícias e sai incapaz de anunciá-las. A congregação que espera recebe gestos em lugar delas. Contudo, seu silêncio não cancela a promessa. Elizabete concebe, e Lucas permite que suas próprias palavras sobre a remoção da vergonha encerrem o episódio.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:5

    Herodes, o Grande, morreu em 4 a.C., o que situa estes fatos antes dessa data. O turno de Abias é a oitava das vinte e quatro divisões sacerdotais sorteadas em 1 Crônicas 24:10. Isabel leva o nome da própria esposa de Arão, Eliseba (Êxodo 6:23), de modo que marido e mulher são ambos de linhagem sacerdotal.

  2. Lucas 1:6

    “Mandamentos e preceitos” é o par que o Antigo Testamento grego usa para abranger todas as exigências da Lei. O texto grego fala em andar, a imagem hebraica da conduta como estrada percorrida. “Irrepreensível” significa que ninguém podia apontar neles uma falha, não que fossem sem pecado.

  3. Lucas 1:7

    “De idade avançada” repete a expressão usada para Abraão e Sara em Gênesis 18:11: justos, idosos e sem filhos. Os primeiros leitores de Lucas que conheciam as Escrituras reconheceriam a cena antes mesmo de aparecer qualquer anjo.

  4. Lucas 1:8

    Cada uma das vinte e quatro divisões servia no templo uma semana, duas vezes por ano, e todas juntas nas grandes festas. Zacarias está de serviço no rodízio comum; nada naquele dia é excepcional até o versículo 11.

  5. Lucas 1:9

    Os sacerdotes eram tão numerosos, cerca de vinte mil segundo as contas de Josefo, que as tarefas se distribuíam por sorteio. A Mixná diz que quem já tivesse queimado o incenso não podia ser escolhido de novo, de modo que provavelmente foi a única vez em sua vida. “Templo” aqui é o santuário propriamente dito, onde só os sacerdotes entravam.

  6. Lucas 1:10

    O incenso era oferecido nos sacrifícios da manhã e da tarde, e o povo se reunia nos átrios para orar enquanto ele queimava. Salmos 141:2 faz a ligação ao pedir que a oração suba diante de Deus como incenso. Atos 3:1 menciona a hora nona, meio da tarde, como hora da oração.

  7. Lucas 1:11

    O altar de ouro do incenso ficava no lugar santo, logo diante do véu, entre o candelabro e a mesa dos pães da proposição (Êxodo 30:1–6). O anjo está “à direita do altar”, o lado do favor. Zacarias está sozinho na sala, sem ninguém com quem dividir o que vê.

  8. Lucas 1:12

    O medo é a reação comum diante de um anjo nas Escrituras; Manoá, pai de Sansão, tem certeza de que vai morrer por ter visto um (Juízes 13:22). Lucas dobra a reação: Zacarias fica “perturbado” e é “tomado de temor”.

  9. Lucas 1:13

    Não se diz qual oração foi ouvida. Pode ser o longo pedido do casal por um filho, ou a oração pela redenção de Israel que um sacerdote faria junto ao incenso; a resposta do anjo cobre as duas. João é Yohanan, “o SENHOR foi gracioso”.

  10. Lucas 1:14

    Lucas começa por “alegria e regozijo”, e seu livro termina do mesmo modo, com os discípulos voltando a Jerusalém com grande alegria (24:52). A alegria não fica restrita à família: “muitos se alegrarão” com ela.

  11. Lucas 1:15

    “Bebida forte” é sikera, bebida fermentada que não vem da uva, como o vinho de tâmaras ou a cerveja. O par era proibido aos sacerdotes em serviço (Levítico 10:9) e fazia parte do voto de Ana por Samuel no grego de 1 Samuel 1:11. “Grande diante do Senhor” é uma grandeza com medida; compare com o versículo 32.

  12. Lucas 1:16

    “Converterá” usa o verbo dos profetas para o arrependimento, a volta por uma estrada da qual se tinha afastado. A promessa é para “muitos”, não para todos, expectativa realista para qualquer profeta ao longo da trajetória de Israel.

  13. Lucas 1:17

    “Adiante dele” remete a “o Senhor, o Deus deles” do versículo 16, de modo que João vai à frente do próprio Deus. O anjo cita a primeira metade da linha de Malaquias e substitui a segunda por “os desobedientes à sabedoria dos justos”. A ameaça final de maldição em Malaquias não é repetida.

  14. Lucas 1:18

    A pergunta de Zacarias reproduz palavra por palavra a de Abraão no grego de Gênesis 15:8, feita a respeito da terra prometida. Abraão recebeu um sinal numa cerimônia de aliança. Zacarias também receberá um, de natureza bem diferente.

  15. Lucas 1:19

    No Antigo Testamento Gabriel só aparece em Daniel (8:16, 9:21), e em Daniel 9:21 chega por volta da oferta da tarde, a hora do incenso. Estar “na presença de Deus” é linguagem de corte para o servidor próximo de um rei, que aguarda as suas ordens.

  16. Lucas 1:20

    O sinal que Zacarias pediu é dado, e é o seu próprio silêncio. A palavra traduzida por “mudo” pode, em outros lugares, significar também surdo. “No seu devido tempo” é kairos, o tempo marcado, que neste caso está a nove meses de distância.

  17. Lucas 1:21

    O incenso levava poucos minutos, e uma demora longa no santuário causava alarme. A Mixná conta que no Dia da Expiação o sumo sacerdote abreviava sua oração para não assustar o povo que esperava do lado de fora. “Estava esperando” é imperfeito: ficaram ali, à espera.

  18. Lucas 1:22

    Depois do incenso, os sacerdotes em serviço deviam pronunciar dos degraus a bênção sacerdotal de Números 6:24–26 sobre o povo. Zacarias não consegue dizê-la. O evangelho de Lucas termina com Jesus erguendo as mãos e abençoando os discípulos (24:50), a bênção que faltou no começo do livro.

  19. Lucas 1:23

    “Ministério” é leitourgia, serviço público, raiz da palavra liturgia. Terminada a sua semana, ele volta para casa, na região montanhosa da Judeia, numa cidade que fica sem nome até Maria viajar para lá no versículo 39.

  20. Lucas 1:24

    Lucas não explica por que Isabel se ocultou. Uma sugestão é que ela esperou até que a gravidez fosse visível e não pudesse ser posta em dúvida; trata-se de uma inferência. Cinco meses a levam ao sexto mês com que começa o versículo 26.

  21. Lucas 1:25

    “Tirar a minha vergonha” ecoa Raquel no nascimento de José, quando ela diz que Deus removeu a sua afronta (Gênesis 30:23). A esterilidade era em geral vista como desonra. “Olhou para mim” quer dizer que a atenção de Deus se voltou para ela.

Lucas 1:5-25

Bíblia Portuguesa Mundial

5Nos dias de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias, do turno sacerdotal de Abias. Sua esposa era descendente de Arão, e o nome dela era Isabel.

6Ambos eram justos diante de Deus e viviam de modo irrepreensível, obedecendo a todos os mandamentos e preceitos do Senhor.

7Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos já eram de idade avançada.

8Ora, enquanto Zacarias exercia o ofício sacerdotal diante de Deus durante o turno de sua divisão,

9segundo o costume do ofício sacerdotal, coube-lhe por sorte entrar no templo do Senhor e queimar incenso.

10Toda a multidão do povo estava orando do lado de fora na hora do incenso.

11Um anjo do Senhor apareceu a ele, em pé à direita do altar do incenso.

12Zacarias ficou perturbado ao vê-lo e foi tomado de temor.

13Mas o anjo lhe disse: “Não tenha medo, Zacarias, porque a sua oração foi ouvida. Sua mulher, Isabel, lhe dará à luz um filho, e você o chamará pelo nome de João.

14Você terá alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento.

15Pois ele será grande diante do Senhor, e não beberá vinho nem bebida forte. Ele será cheio do Espírito Santo, desde o ventre de sua mãe.

16Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, o Deus deles.

17Ele irá adiante dele no espírito e poder de Elias, ‘para converter os corações dos pais aos filhos’, e os desobedientes à sabedoria dos justos; para preparar um povo preparado para o Senhor.”

18Zacarias disse ao anjo: “Como posso ter certeza disso? Pois eu sou velho, e minha mulher já é de idade avançada.”

19O anjo lhe respondeu: “Eu sou Gabriel, que estou na presença de Deus. Fui enviado para falar com você e lhe trazer esta boa notícia.

20Eis que, você ficará mudo e não poderá falar até o dia em que estas coisas acontecerem, porque você não creu nas minhas palavras, as quais se cumprirão no seu devido tempo.”

21O povo estava esperando por Zacarias e se admirava com a demora dele no templo.

22Quando ele saiu, não podia falar com eles. Eles perceberam que ele tinha tido uma visão no templo. Ele continuava fazendo sinais para eles, e permaneceu mudo.

23Quando se cumpriram os dias do seu ministério, ele foi para a sua casa.

24Depois destes dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e se ocultou por cinco meses, dizendo:

25“Foi assim que o Senhor agiu comigo nos dias em que olhou para mim, para tirar a minha vergonha diante das pessoas.”

Lucas 1:26-38

Um trono prometido em Nazaré

A cena muda da Jerusalém sacerdotal para a Nazaré comum, mas a linguagem de Gabriel cresce em vez de encolher. A Maria é dito que seu filho receberá o trono de Davi, reinará sobre Jacó para sempre e possuirá um reino sem fim. João preparará; Jesus reinará. Essa diferença mantém os dois anúncios de nascimento em relação deliberada sem achatá-los em versões paralelas do mesmo papel. A pergunta de Maria também recebe uma resposta diferente da de Zacarias. Ela pergunta como a concepção ocorrerá em suas circunstâncias presentes e é respondida, não repreendida. Gabriel nomeia o Espírito Santo e "o poder do Altíssimo", dando ao acontecimento uma causa divina sem pretender oferecer um mecanismo físico. A gravidez de Isabel torna-se um sinal que une as duas casas antes que as crianças se encontrem. As palavras finais de Maria, "que se cumpra em mim segundo a sua palavra", não são uma pretensão de compreender o futuro. São a aceitação de uma promessa cuja escala é muito maior do que qualquer coisa visível em Nazaré.

Estudo aprofundado

O movimento do templo para Nazaré é significativo. Gabriel agora se dirige a uma mulher fora do ambiente sacerdotal, e o rei prometido não tem um trono visível à sua espera. A linguagem do trono de Davi e de um reino duradouro lembra a promessa em 2 Samuel 7:12-16. Lucas não reduz Jesus a outro profeta na linha de João: João prepara um povo, enquanto Jesus recebe o reino e é chamado Filho do Altíssimo.

A pergunta de Maria diz respeito a como a concepção pode ocorrer em suas circunstâncias. Ao contrário de Zacarias, ela não é repreendida por incredulidade. Gabriel responde mencionando o Espírito Santo e o poder do Altíssimo, e não fornecendo um mecanismo físico. A expressão “a cobrirá com a sua sombra” comunica ação divina sem transformar o anúncio em explicação biológica. A gravidez de Elizabete fornece um sinal de confirmação e também une as duas famílias antes que seus filhos nasçam.

A resposta final de Maria aceita a palavra que lhe foi transmitida; não afirma conhecimento completo do futuro. Lucas registra sua ponderação e sua resposta, mas não os discursos íntimos, a idade exata nem as reações imaginadas de vizinhos frequentemente acrescentados à cena. O termo "parenta" identifica parentesco com Isabel sem estabelecer o grau preciso da relação entre elas.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:26

    “O sexto mês” se conta a partir da concepção de Isabel e amarra os dois anúncios. Nazaré nunca é mencionada no Antigo Testamento nem por Josefo; era uma pequena aldeia nas colinas acima do vale de Jezreel. Lucas a chama de “cidade”, palavra usada para qualquer povoado estabelecido.

  2. Lucas 1:27

    O noivado era um contrato legal vinculante que só o divórcio desfazia, embora a noiva continuasse na casa do pai até o casamento, muitas vezes cerca de um ano depois. “Da casa de Davi” se liga gramaticalmente a José. A palavra “virgem” aparece duas vezes num só versículo.

  3. Lucas 1:28

    “Alegre-se” traduz chaire, a saudação grega comum, que literalmente significa alegra-te. “Altamente favorecida” se forma sobre a mesma raiz, charis, graça: aquela que foi agraciada. A saudação e o título fazem um jogo com a mesma palavra.

  4. Lucas 1:29

    Zacarias ficou perturbado ao ver o anjo (versículo 12); Maria se perturba com “aquelas palavras”. “Pensava” está no imperfeito, ela continuava revolvendo a coisa, e Lucas lhe dá uma reação refletida antes de qualquer pergunta.

  5. Lucas 1:30

    Achar graça diante de Deus é o que se diz de Noé em Gênesis 6:8 e de Moisés em Êxodo 33:17. A “graça” é de novo charis, a palavra do versículo 28, e a repetição do anjo responde à perplexidade de Maria diante da saudação.

  6. Lucas 1:31

    A formulação segue de perto Isaías 7:14 no Antigo Testamento grego: conceber no ventre, dar à luz um filho, chamá-lo pelo nome. Lucas não cita Isaías; Mateus cita. Jesus é Yeshua, o mesmo nome de Josué, que significa “o SENHOR salva”. Aqui é Maria quem dá o nome.

  7. Lucas 1:32

    “Altíssimo” traduz o hebraico Elyon, título de Deus ouvido pela primeira vez da boca de Melquisedeque em Gênesis 14:18. João seria “grande diante do Senhor” (versículo 15); de Jesus se diz apenas “Ele será grande”, sem qualificação.

  8. Lucas 1:33

    “Não haverá fim” ecoa Isaías 9:7, que promete paz e governo sem fim sobre o trono de Davi. A “casa de Jacó” é Israel inteiro, as doze tribos, e não apenas a tribo real de Judá.

  9. Lucas 1:34

    No grego Maria diz que não conhece homem, o idioma hebraico para relações sexuais, como em Gênesis 4:1, onde Adão conhece Eva. O verbo está no presente e descreve a sua condição atual. A pergunta é sobre o meio, o “como”, e não sobre se Deus é capaz.

  10. Lucas 1:35

    “Cobrirá com a sua sombra” é o verbo usado no grego de Êxodo 40:35, onde a nuvem pousou sobre o tabernáculo e a glória o encheu. Lucas o emprega mais uma vez, para a nuvem no monte da transfiguração (9:34). “O santo” está no neutro em grego: o ser santo que vai nascer.

  11. Lucas 1:36

    “Aquela que era chamada estéril” é o que o povo dizia dela, um rótulo prestes a ser aposentado. O sinal dado a Maria pode ser conferido: uma parenta grávida de seis meses na velhice, a poucos dias de viagem. Maria vai vê-lo imediatamente.

  12. Lucas 1:37

    A frase lembra Gênesis 18:14, a pergunta a Sara sobre se há algo difícil demais para o SENHOR, feita a respeito de um filho na velhice. Em grego a palavra é rhema, que significa tanto coisa quanto palavra; a tradução aqui segue o segundo sentido: nenhuma palavra de Deus ficará sem poder.

  13. Lucas 1:38

    “Serva” é doule, escrava, a posição mais baixa numa casa, assumida de boa vontade. “Que se cumpra” traduz um optativo grego, o modo do desejo: que assim aconteça. Suas últimas palavras ao anjo, “segundo a sua palavra”, ecoam as dele.

Lucas 1:26-38

Bíblia Portuguesa Mundial

26Ora, no sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,

27a uma virgem prometida em casamento a um homem cujo nome era José, da casa de Davi. O nome da virgem era Maria.

28Tendo entrado, o anjo lhe disse: “Alegre-se, você que é altamente favorecida! O Senhor está com você. Bendita é você entre as mulheres!”

29Mas, ao vê-lo, ela ficou muito perturbada com aquelas palavras e pensava no que significaria aquela saudação.

30O anjo lhe disse: “Não tenha medo, Maria, pois você achou graça diante de Deus.

31Eis que você conceberá no seu ventre e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de ‘Jesus’.

32Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai,

33e ele reinará sobre a casa de Jacó para sempre. Não haverá fim para o seu Reino.”

34Maria disse ao anjo: “Como será isso, visto que sou virgem?”

35O anjo lhe respondeu: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a cobrirá com a sua sombra. Por isso também o santo que nascer de você será chamado Filho de Deus.

36Eis que Isabel, sua parenta, também concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês para aquela que era chamada estéril.

37Pois nada do que Deus diz é impossível.”

38Maria disse: “Eis aqui a serva do Senhor; que se cumpra em mim segundo a sua palavra.” Então o anjo retirou-se dela.

Lucas 1:39-45

Reconhecimento antes que qualquer criança fale

Uma saudação à porta torna-se reconhecimento antes que qualquer das crianças prometidas tenha falado. O ainda não nascido João salta, Isabel é cheia do Espírito Santo, e suas primeiras palavras dizem respeito a Maria e à "mãe do meu Senhor". O Livro de Lucas enraíza esse reconhecimento na ação do Espírito, e não em uma cadeia de relatos que chegasse à casa de Zacarias. A mulher mais velha não protege sua própria gravidez notável como se a chegada de Maria lhe tivesse roubado o espaço. Em vez disso, ela interpreta a presença de Maria como bênção. Suas palavras finais tornam a fé parte da distinção: Maria é bem-aventurada porque creu que se cumpriria o que o Senhor lhe havia falado. O silêncio de Zacarias ainda pesa sobre a mesma casa, o que dá àquela frase peso adicional sem transformá-lo em exemplo permanente de infidelidade. Ele questionou a palavra no templo; Isabel agora reconhece seu cumprimento à sua porta. O Livro de Lucas permite que essas respostas fiquem lado a lado enquanto as próprias crianças permanecem escondidas da vista pública.

Galileia e Judeia
Galileia e Judeia

Estudo aprofundado

A saudação de Maria desencadeia uma sequência de reconhecimento. João, ainda não nascido, salta, Elizabete é cheia do Espírito Santo, e sua fala identifica o filho da visitante como seu Senhor. Lucas situa esse reconhecimento na atividade do Espírito, e não em Elizabete ter montado um relato a partir de informações que já circulavam. A mulher mais velha não trata a visita da mais jovem como uma intromissão em sua própria gravidez extraordinária.

A bênção de Elizabete repousa não só na maternidade de Maria, mas em sua fé de que a palavra do Senhor se cumprirá. Isso cria um contraste discreto com Zacarias, cuja incapacidade de falar permanece parte do cenário doméstico. Ele recebeu um anúncio no templo e questionou sua confiabilidade; Elizabete reconhece o cumprimento chegando à sua porta. O contraste não faz dele alguém permanentemente sem fé nem dela alguém onisciente. Mostra como a palavra anunciada foi recebida de maneiras diferentes nesse ponto do relato de Lucas.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:39

    “Apressadamente” pode indicar tanto empenho quanto rapidez. A região montanhosa da Judeia ficava a uns cento e trinta quilômetros ou mais ao sul de Nazaré, quatro ou cinco dias de viagem. A cidade não é nomeada; a tradição que a situa em Ein Karem, a oeste de Jerusalém, surgiu séculos depois.

  2. Lucas 1:40

    Maria entra “na casa de Zacarias”, mas é Isabel quem ela saúda. A saudação seria o habitual desejo de paz. Lucas não registra as palavras, porque o que importa é o que acontece quando são ouvidas.

  3. Lucas 1:41

    “Saltou” é o verbo que o Antigo Testamento grego usa para Jacó e Esaú lutando no ventre de Rebeca (Gênesis 25:22). O anjo prometera que João seria cheio do Espírito Santo desde o ventre (versículo 15); aqui isso começa, e a mãe também é cheia.

  4. Lucas 1:42

    “Exclamou” traduz um verbo usado no grego de Crônicas para os levitas que tocavam os instrumentos diante da arca (1 Crônicas 16:4–5). Jael (Juízes 5:24) e Judite foram louvadas como benditas entre as mulheres por libertarem Israel; Isabel dá a Maria o mesmo louvor.

  5. Lucas 1:43

    Alguns leitores ouvem aqui Davi diante da arca em 2 Samuel 6:9, perguntando como a arca do SENHOR viria a ele, sobretudo porque a arca ficou três meses na casa de Obede-Edom (6:11), assim como Maria fica três meses (versículo 56). O eco é sugestivo, não declarado. “Meu Senhor” é o título dado a Deus ao longo de todo o capítulo.

  6. Lucas 1:44

    “De alegria” é agalliasis, exultação, a raiz do verbo que Maria usa três versículos adiante (versículo 47). Isabel descreve o movimento do filho como alegre, de modo que o primeiro a se alegrar com a vinda de Jesus é uma criança ainda não nascida.

  7. Lucas 1:45

    “Pois” pode igualmente ser lido como “que”: bem-aventurada a que creu que haveria cumprimento. “Cumprimento” é a realização, o levar até o fim aquilo que foi dito. Isabel fala de Maria na terceira pessoa, como quem pronuncia uma bênção sobre ela.

Lucas 1:39-45

Bíblia Portuguesa Mundial

39Maria levantou-se naqueles dias e foi apressadamente para a região montanhosa, para uma cidade de Judá,

40e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.

41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê saltou em seu ventre; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

42Ela exclamou em alta voz e disse: “Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre!

43Por que sou tão favorecida, para que a mãe do meu Senhor venha a mim?

44Pois, assim que ouvi a sua saudação, o bebê saltou de alegria em meu ventre!

45Bem-aventurada é aquela que creu, pois haverá o cumprimento das coisas que lhe foram ditas da parte do Senhor!”

Lucas 1:46-56

O louvor de Maria se amplia além de sua família

O louvor de Maria começa perto de casa e depois se recusa a permanecer ali. Ela fala de sua própria condição humilde e das grandes coisas feitas nela, mas quase imediatamente alarga o quadro para as gerações, os soberbos, os poderosos, os humildes, os famintos, os ricos, Israel, Abraão e a promessa lembrada. Sua bem-aventurança nunca é apresentada como distinção gerada por ela mesma. "Pois o Poderoso fez grandes coisas por mim", e ela nomeia Deus como seu Salvador. As inversões ecoam o antigo louvor de Ana, colocando a vinda de Jesus dentro de um longo padrão bíblico em que a misericórdia divina desarruma os cálculos humanos sobre força e posição. A linguagem é confiante o bastante para falar dessas inversões como já realizadas, embora suas consequências públicas ainda estejam à frente. O fim com Abraão impede que o cântico se torne uma celebração solta da inversão por si mesma. A misericórdia tem história, promessa e um povo em vista. Depois, quase abruptamente, Maria volta para casa.

Estudo aprofundado

Maria começa com o que Deus fez por ela, mas seu louvor se recusa a permanecer pequeno. O movimento vai de uma serva pouco considerada para gerações, de suas circunstâncias para os famintos, os poderosos e Israel. Sua bem-aventurança não é apresentada como grandeza independente. O Poderoso agiu, e ela identifica Deus como seu Salvador. A ênfase recai sobre quem dá e sobre a dádiva, em vez de uma superioridade inexplicada de quem recebe.

As inversões de força e fraqueza, fome e fartura lembram a oração de Ana em 1 Samuel 2:1-10. A abertura de Lucas não anuncia um Deus que subitamente adotou interesses diferentes. As palavras de Maria inserem a vinda de Jesus no padrão mais antigo da misericórdia divina que inverte expectativas humanas. A linguagem de ação concluída dá ao louvor a confiança de uma intervenção realizada, embora as consequências públicas do nascimento de Jesus ainda estejam adiante.

O encerramento nomeia Abraão e seus descendentes, impedindo que essas inversões se tornem um lema isolado. A misericórdia tem em vista uma promessa lembrada e um povo específico. Maria então volta para casa depois de cerca de três meses. Lucas não a situa explicitamente no nascimento de João, embora a cronologia naturalmente convide a essa reconstrução.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:46

    O cântico é chamado Magnificat por causa da sua primeira palavra na Bíblia latina. O verbo “engrandece” quer dizer declarar grande. Alguns manuscritos latinos atribuem este versículo a Isabel, mas quase todos os manuscritos gregos o dão a Maria.

  2. Lucas 1:47

    “Alma” e “espírito” são um par poético hebraico, a mesma coisa dita duas vezes, não duas partes dela. “Deus, meu Salvador” ecoa Habacuque 3:18, onde o profeta se alegra no Deus da sua salvação. O verbo passa ao passado: o seu espírito já se alegrou.

  3. Lucas 1:48

    Quando Lia deu à luz Aser, disse que as filhas a chamariam feliz (Gênesis 30:13); Maria amplia isso para “todas as gerações”. “Condição humilde” é tapeinosis, baixeza ou humilhação, uma posição social e não um estado de ânimo.

  4. Lucas 1:49

    “O Poderoso” ecoa Sofonias 3:17, que fala do SENHOR poderoso no meio do seu povo. Moisés lembrou a Israel as coisas grandes e terríveis que Deus fizera por ele (Deuteronômio 10:21). “Santo é o seu nome” vem de Salmos 111:9.

  5. Lucas 1:50

    O versículo fica próximo de Salmos 103:17, que estende a misericórdia do SENHOR de eternidade a eternidade sobre os que o temem. O temor é reverência, a postura de quem leva Deus a sério. A misericórdia não se limita a uma geração, a dela inclusive.

  6. Lucas 1:51

    O “braço” é a imagem do Êxodo para o poder de Deus, o braço estendido de Deuteronômio 5:15. Salmos 89:10 junta braço e dispersão: Deus espalha os inimigos com o seu braço forte. “Imaginação dos seus corações” são os planos que eles traçaram.

  7. Lucas 1:52

    Ezequiel 21:26 fala em exaltar o que está embaixo e abater o que está no alto. Lucas volta a essa mesma inversão nas palavras do próprio Jesus: quem se exalta será humilhado (14:11, 18:14). Os “tronos” são o assento de quem governa.

  8. Lucas 1:53

    Salmos 107:9 diz que Deus sacia a alma faminta com bens. Jesus dirá o mesmo na versão de Lucas das bem-aventuranças: felizes os que agora têm fome, e ai dos ricos (6:21, 24). O cântico de Maria antecipa o sermão do seu filho.

  9. Lucas 1:54

    O verbo grego por trás de “auxiliou” significa segurar alguém para sustentá-lo, o mesmo verbo de Isaías 41:9 no Antigo Testamento grego, onde Deus diz a Israel, seu servo, que o tomou desde os confins da terra.

  10. Lucas 1:55

    Miqueias 7:20 encerra o livro desse profeta com a fidelidade a Jacó e a misericórdia a Abraão, juradas aos pais desde os tempos antigos. O cântico fecha em “para sempre”, o seu horizonte mais distante.

  11. Lucas 1:56

    “A sua casa” é a casa da família dela: Maria ainda está noiva e não vive com José. No capítulo seguinte ela viaja a Belém como sua noiva prometida (2:5).

Lucas 1:46-56

Bíblia Portuguesa Mundial

46Maria disse: “A minha alma engrandece ao Senhor.

47O meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador,

48pois ele olhou para a condição humilde de sua serva. Pois eis que, de agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada.

49Pois o Poderoso fez grandes coisas por mim. Santo é o seu nome.

50A sua misericórdia é de geração em geração sobre aqueles que o temem.

51Ele demonstrou força com o seu braço. Ele dispersou os soberbos na imaginação dos seus corações.

52Ele derrubou os príncipes de seus tronos, e exaltou os humildes.

53Ele encheu de bens os famintos. Ele despediu os ricos de mãos vazias.

54Ele auxiliou a Israel, seu servo, para se lembrar da misericórdia,

55como ele falou aos nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre.”

56Maria ficou com ela cerca de três meses, e então voltou para a sua casa.

Lucas 1:57-66

Os parentes não decidem o nome desta criança

Os vizinhos conseguem reconhecer a misericórdia no filho de Isabel sem saber qual deve ser o nome dele. O instinto deles é inteiramente compreensível: chamá-lo de Zacarias e manter o padrão da família em movimento. Isabel interrompe essa expectativa com "Não", e quando os parentes apelam ao pai mudo, descobrem que a questão já estava resolvida antes de eles chegarem. Zacarias escreve "O nome dele é João", e não "eu gostaria de chamá-lo de João". A formulação trata o nome como identidade já dada, não como preferência à espera da aprovação de um comitê. Os parentes se reuniram para um debate sobre o nome do qual os pais nunca participaram de fato. Imediatamente a boca de Zacarias se abre, e o primeiro uso da fala restaurada é louvor, revertendo o silêncio que seguiu sua incredulidade. A reação ao redor passa da surpresa familiar ao temor e à conversa pública sobre o futuro do menino. O Livro de Lucas não responde a toda curiosidade sobre a condição de Zacarias. Ele mantém o foco na promessa, no nome atribuído e na mão do Senhor que repousa sobre a criança.

Estudo aprofundado

Os vizinhos reconhecem misericórdia no nascimento, mas a escolha do nome expõe uma diferença entre o que foi dito à família imediata e o que os demais parentes esperam. Chamar a criança de Zacarias preservaria um padrão familiar compreensível. A resposta de Elizabete interrompe essa suposição, e os parentes recorrem ao pai como se o assunto ainda pudesse ser negociado. A objeção deles é genealógica; a instrução veio de outra fonte.

Zacarias não escreve uma preferência de nome. Escreve “O nome dele é João”, confirmando uma identidade já atribuída no anúncio de Gabriel. Os parentes convocaram uma comissão desnecessária para escolher o nome. Elizabete e Zacarias concordam contra o apelo dos parentes ao precedente familiar; assim, o nome marca sua aceitação da promessa anunciada.

Sua fala restaurada se torna louvor, revertendo o silêncio imposto depois da incredulidade. O temor e a discussão ao redor dizem respeito ao futuro da criança, e Lucas encerra com a mão do Senhor sobre ela. Os sinais feitos a Zacarias podem sugerir que a audição também foi afetada, mas o anúncio anterior menciona explicitamente a mudez; o livro não fornece um diagnóstico separado.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:57

    “Cumpriu-se o tempo” é a linguagem de cumprimento de que Lucas gosta, e que ele usa de novo para Maria em 2:6. O versículo é breve porque a promessa do anjo já disse tudo sobre este filho.

  2. Lucas 1:58

    “Demonstrado grande misericórdia” é literalmente engrandecido a sua misericórdia, o verbo de Maria em “A minha alma engrandece” (versículo 46). A alegria dos vizinhos cumpre a palavra do anjo de que muitos se alegrariam com o nascimento (versículo 14).

  3. Lucas 1:59

    A circuncisão no oitavo dia seguia Gênesis 17:12 e Levítico 12:3. No Antigo Testamento as crianças em geral recebiam o nome ao nascer, de modo que isto é um testemunho antigo do costume de nomear na circuncisão. “Queriam chamá-lo” traduz um imperfeito: iam chamá-lo assim e foram impedidos.

  4. Lucas 1:60

    O “Não” de Isabel é uma recusa firme. Lucas não diz como ela soube o nome. Zacarias pode tê-lo escrito para ela nos meses de silêncio; é uma inferência para a qual o texto deixa espaço.

  5. Lucas 1:61

    João, Yohanan, era um nome comum, usado por sumos sacerdotes e por príncipes macabeus. A objeção não é que o nome seja estranho, mas que ninguém da família o tem. Os parentes tratam os nomes como propriedade da família.

  6. Lucas 1:62

    Dar o nome cabia à autoridade do pai. Quando Raquel, morrendo, chamou o filho de Benoni, Jacó a corrigiu e o chamou Benjamim (Gênesis 35:18). Os parentes esperam que o pai resolva a disputa, talvez contra a mãe.

  7. Lucas 1:63

    A “tabuinha de escrever” era uma pequena placa de madeira coberta de cera, em que se escrevia com estilete. “Todos se admiraram”, porque os pais concordaram num nome que ninguém esperava. O pai confirma a mãe sem que um tivesse ouvido o outro.

  8. Lucas 1:64

    “Imediatamente” é parachrema, palavra que Lucas usa mais do que qualquer outro escritor do Novo Testamento. O grego tem um só verbo para boca e língua, e o português precisa de dois para dar sentido. Mais de nove meses de silêncio terminam em louvor.

  9. Lucas 1:65

    O temor é assombro diante da mão evidente de Deus nos acontecimentos, não pavor. As coisas “foram comentadas”, passando de aldeia em aldeia. A região montanhosa da Judeia é o planalto em volta e ao sul de Jerusalém.

  10. Lucas 1:66

    Guardar as coisas no coração é o que Maria fará duas vezes no capítulo seguinte (2:19, 51). “A mão do Senhor” é a expressão do Antigo Testamento para o poder de Deus sobre um profeta, usada para Elias quando correu adiante do carro de Acabe (1 Reis 18:46).

Lucas 1:57-66

Bíblia Portuguesa Mundial

57Ora, cumpriu-se o tempo em que Isabel deveria dar à luz, e ela teve um filho.

58Seus vizinhos e parentes ouviram que o Senhor havia demonstrado grande misericórdia para com ela e se alegraram com ela.

59No oitavo dia, vieram circuncidar o menino; e queriam chamá-lo de Zacarias, segundo o nome de seu pai.

60Sua mãe respondeu: “Não; mas ele será chamado João.”

61Eles lhe disseram: “Não há ninguém entre os seus parentes que seja chamado por este nome.”

62Fizeram sinais ao pai dele, perguntando como ele queria que fosse chamado.

63Ele pediu uma tabuinha de escrever, e escreveu: “O nome dele é João.” Todos se admiraram.

64Imediatamente a sua boca se abriu e a sua língua se soltou, e ele falava, bendizendo a Deus.

65Todos os que moravam ao redor deles foram tomados de temor, e todas essas coisas foram comentadas por toda a região montanhosa da Judeia.

66Todos os que as ouviam as guardavam em seu coração, dizendo: “O que, então, será este menino?” A mão do Senhor estava com ele.

Lucas 1:67-80

Um pai louva alguém maior que seu filho

Zacarias finalmente tem sua voz, e o que impressiona é quanto ele fala antes de chegar ao próprio filho. A profecia abre com a visitação de Deus, a redenção, a casa de Davi, os profetas, Abraão, a misericórdia da aliança, o livramento e o serviço diante de Deus. A importância de João aparece dentro desse movimento maior, e não em seu centro. Só então o pai se volta para a criança: "E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo". João é grande porque prepara o caminho de alguém maior. A profecia também se recusa a separar o resgate exterior do perdão como se pertencessem a esperanças desconexas. Inimigos, aliança, santidade, remissão de pecados, misericórdia, luz e paz ocupam um único campo de expectativa. O "amanhecer do alto" dá à visitação vindoura o ar de uma aurora que alcança pessoas em trevas e na sombra da morte. Depois de toda essa linguagem, o Livro de Lucas comprime anos em uma linha. João cresce, fortalece-se em espírito e permanece nos desertos até sua manifestação pública, sem anos inventados para preencher o silêncio.

Um pai louva alguém maior que seu filho
Cena do capítuloLucas 1

Estudo aprofundado

Zacarias finalmente recuperou a voz, mas sua profecia não começa celebrando as perspectivas pessoais de João. Começa com a visitação do Senhor e um “chifre de salvação” na casa de Davi. Essa localização real distingue o libertador prometido da própria família sacerdotal de Zacarias. O pai de João compreende a importância de seu filho identificando a obra maior à qual ele servirá.

O livramento dos inimigos e o perdão dos pecados não são assuntos concorrentes na profecia. O movimento une a misericórdia da aliança, a liberdade para servir a Deus e o conhecimento da salvação pela remissão. As promessas a Abraão dão à linguagem uma longa memória; a vinda de João não significa que a história anterior de Israel tenha sido descartada. O resgate é dirigido a uma vida diante de Deus, e não simplesmente a uma mudança de circunstâncias externas.

Somente no versículo 76 Zacarias se dirige diretamente ao filho. João preparará o caminho, em vez de ocupar o centro. A “aurora” introduz a imagem da luz nascente na linguagem da visitação, alcançando os que estão em trevas e na sombra da morte. O versículo final então passa por anos em uma frase. Lucas registra o crescimento de João e sua preparação no deserto, mas não transforma esse silêncio em um relato de uma escola ou comunidade não documentada.

Percurso versículo por versículo

  1. Lucas 1:67

    O cântico é chamado Benedictus por causa da sua primeira palavra em latim. Uma tradição judaica afirmava que a profecia cessara em Israel depois de Malaquias; no primeiro capítulo de Lucas o Espírito enche Isabel, depois Zacarias, e a profecia volta a ser ouvida.

  2. Lucas 1:68

    “Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel” é quase literalmente a doxologia que fecha o primeiro e o quarto livros dos Salmos (41:13, 106:48). “Visitou” é a palavra de Êxodo 4:31, quando Israel no Egito ouviu que o SENHOR o visitara. “Redimiu” significa pagou o resgate.

  3. Lucas 1:69

    O chifre era a imagem da força de um animal, e Salmos 132:17 prometera fazer brotar o chifre de Davi. Um sacerdote da linhagem de Arão fala da salvação que se levanta da casa real de Davi, e não da sua própria.

  4. Lucas 1:70

    Pedro usa quase a mesma expressão em Atos 3:21, ao falar do que Deus anunciou pela boca dos seus santos profetas desde a antiguidade. Lucas escreve os dois livros, e ambos remontam a toda a linhagem profética. “Desde os tempos antigos” significa desde outrora.

  5. Lucas 1:71

    Salmos 106:10 descreve o Êxodo quase com as mesmas palavras: Deus os salvou da mão de quem os odiava e os resgatou da mão do inimigo. Os inimigos não são nomeados, e os ouvintes de Zacarias preencheriam por conta própria.

  6. Lucas 1:72

    Alguns leitores encontram os nomes da família embutidos nestas linhas: João significa “Deus é gracioso” (misericórdia), Zacarias, “o SENHOR se lembra” (lembrar), e Isabel, no versículo seguinte, “meu Deus é juramento”. Se o jogo de palavras é intencional é incerto, mas os três estão ali.

  7. Lucas 1:73

    O juramento a Abraão foi feito depois da amarração de Isaque, quando o SENHOR jurou por si mesmo (Gênesis 22:16). Um juramento que Deus faz por si mesmo não tem nada maior a que apelar. Abraão é chamado “nosso pai”, ancestral da nação inteira.

  8. Lucas 1:74

    Em grego “sem temor” vem em primeiro lugar na oração, posição de ênfase. “Servíssemos” é latreuo, a palavra para culto e serviço sacerdotal. Um sacerdote fala do povo inteiro, já liberto, prestando esse serviço.

  9. Lucas 1:75

    Zacarias servia no templo uma semana de cada vez; aqui ele fala de um serviço diante de Deus “todos os dias da nossa vida”. “Santidade e justiça” juntam a devoção a Deus e a retidão no trato com as pessoas.

  10. Lucas 1:76

    O menino de oito dias é interpelado diretamente. Ele será “profeta do Altíssimo”, enquanto Jesus é “Filho do Altíssimo” (versículo 32). Ir à frente do Senhor para preparar os seus caminhos combina Malaquias 3:1 e Isaías 40:3.

  11. Lucas 1:77

    A tarefa é dar “conhecimento de salvação”, não a salvação em si. “Remissão” é aphesis, soltura, a palavra que aparece duas vezes no texto de Isaías quando Jesus o lê em Nazaré, para a libertação dos cativos e a liberdade dos oprimidos (4:18).

  12. Lucas 1:78

    “Terna misericórdia” é literalmente as entranhas da misericórdia, as partes internas tidas como sede do sentimento. “O amanhecer” é anatole, nascer do sol, mas o Antigo Testamento grego usa a mesma palavra para o Renovo, o broto de Davi, em Jeremias 23:5 e Zacarias 3:8.

  13. Lucas 1:79

    Isaías 9:2 fala da luz que brilhou sobre os que habitavam na terra da sombra da morte. O povo está “sentado”, incapaz de se mover no escuro; o versículo termina com os pés guiados para uma estrada.

  14. Lucas 1:80

    As mesmas palavras se dizem de Jesus em 2:40: o menino crescia e se fortalecia. No grego “deserto” está no plural, a região selvagem da Judeia que desce até o Mar Morto. “Manifestação pública” é anadeixis, termo usado para a posse pública de um funcionário.

Lucas 1:67-80

Bíblia Portuguesa Mundial

67Seu pai, Zacarias, ficou cheio do Espírito Santo, e profetizou, dizendo:

68“Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel, pois ele visitou e redimiu o seu povo;

69e levantou um chifre de salvação para nós na casa de seu servo Davi

70(como ele falou por meio dos seus santos profetas desde os tempos antigos),

71salvação dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam;

72para mostrar misericórdia para com os nossos pais, para se lembrar da sua santa aliança,

73o juramento que ele fez a Abraão, nosso pai,

74de nos conceder que nós, sendo libertos da mão dos nossos inimigos, o servíssemos sem temor,

75em santidade e justiça diante dele todos os dias da nossa vida.

76E você, menino, será chamado profeta do Altíssimo; pois você irá à frente do Senhor para preparar os seus caminhos,

77para dar conhecimento de salvação ao seu povo pela remissão dos seus pecados,

78por causa da terna misericórdia do nosso Deus, pela qual o amanhecer do alto nos visitará,

79para brilhar sobre aqueles que estão sentados nas trevas e na sombra da morte; para guiar os nossos pés no caminho da paz.”

80O menino crescia e se fortalecia em espírito, e esteve no deserto até o dia da sua manifestação pública a Israel.

Questões para manter em mente durante a leitura

  1. Observe o que Jesus diz e faz e como as pessoas respondem.
  2. Acompanhe reino, discipulado, oposição, cruz e ressurreição na sequência do evangelista.
  3. Deixe a doutrina posterior esclarecer a cena sem apagar seu contexto imediato.

Primeiro o texto

Onde os leitores divergem

O resumo começa com o que a passagem diz e como suas partes se relacionam. Ele não presume que uma denominação já resolveu todas as questões. A dependência de uma tradição, teoria literária ou reconstrução histórica é claramente identificada.

O texto bíblico aparece primeiro. As conclusões interpretativas são identificadas, e as diferenças surgem quando ajudam a explicar por que comunidades sérias nem sempre chegam à mesma resposta.

As notas interpretativas comparativas deste capítulo estão em preparação. Até que as notas revisadas estejam prontas, esta página separa o texto bíblico do resumo e da aplicação sem afirmar que leitores responsáveis concordam em todas as questões.

Questões sob a superfície

  1. Que parte de Lucas 1 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?
  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?
  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Lucas 1?
  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Perguntas para uma reflexão pessoal séria

Estas perguntas são intencionalmente abertas. Permaneça com a tensão da passagem, responda com honestidade e volte à Escritura antes de chegar a uma conclusão.

Observe sem pressa

  1. Que parte de Lucas 1 faz você parar, se sentir desconfortável ou se surpreender, e por quê?

  2. Que detalhe da passagem seria fácil ignorar? Como esse detalhe muda sua compreensão?

  3. Onde você percebe tensão entre o que acontece e este foco: Um médico escreve a um homem chamado Teófilo e diz que investigou tudo com cuidado desde o princípio. Um sacerdote idoso fica mudo, duas mulheres grávidas se encontram e uma delas canta sobre tronos que ficam vazios, e o nascimento é anunciado a pastores, que não eram testemunhas respeitáveis. Simeão e Ana reconhecem o menino, um garoto de doze anos fica para trás no templo, e em Nazaré ele lê Isaías em voz alta e quase é jogado de um penhasco.?

  4. Que pergunta importante a passagem deixa aberta em vez de resolver rapidamente?

Examine seu interior com honestidade

  1. Com qual pessoa, resposta, medo ou desejo da passagem você mais se identifica neste momento?

  2. Que suposição sua sobre Deus, outras pessoas ou você mesmo este texto desafia?

  3. Que parte você preferiria suavizar, evitar ou explicar depressa demais? O que essa reação pode revelar?

  4. Se esta Escritura pudesse fazer uma pergunta direta a você, qual seria?

Responda com sabedoria e coragem

  1. O que você precisa lembrar, confessar, lamentar, agradecer ou confiar depois de ler esta passagem?

  2. Como outra pessoa fiel poderia ler esta situação de modo diferente sem ignorar o texto?

  3. Que resposta obediente seria difícil, desconfortável ou lenta, mas ainda fiel à Escritura?

  4. Que pergunta você levará à oração nesta semana e quais versículos manterá diante de si?

Ouça e assista junto com a passagem

Ainda não há mídia exata catalogada para esta passagem. O relatório de conciliação conectará novos materiais quando estiverem disponíveis.

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Fonte: eBible.org · porbrbsl · obtido 2026-09-20